A
DOR DA PERDA.
Lidar
com a perda não é tarefa
fácil. Quando se trata de alguém
muito próximo a solução
é buscar ajuda de um profissional.
Superar a perda de uma pessoa querida
é um desafio para qualquer
pessoa. No Oriente, as pessoas buscam
na espiritualização
a consciência de que um dia
irão morrer e aprendem a conviver
com isso. Já no Ocidente não
se tem a tradição de
convívio com a morte. Assim,
quando alguém morre é
quase sempre uma tragédia.
Tânia Pereira sabe o que é
isso. A menos de um mês, deparou-se
com a notícia da morte de seu
pai. Derci Pereira, 68, envolveu-se
em um acidente fatal de trânsito
na BR-267 em Olaria.
— No primeiro momento a gente
não quer acreditar, depois
vem a realidade — comenta Tânia.
A família de Derci está
na Justiça contra o Governo
federal pelas más condições
da rodovia que influenciaram no acidente.
— Quando soubemos do que provocou
o acidente, acionamos a Justiça
para que outras pessoas não
percam suas vidas com as más
condições de conservação
da rodovia — explica Tânia.
De acordo com a psicóloga Viviane
Soldati, a melhor forma de superar
a dor é encarar a situação,
não tentar fugir dos fatos.
— Um dia a pessoa tem que cair
na realidade. Se ela não viver
isso, terá dificuldades de
superação. Ter saudades
e boas lembranças faz parte
do processo — afirma Viviane.
O não enfrentamento pode gerar
uma seqüela que pode vir a prejudicar
a pessoa.
— Tem-se que tentar superar
de uma maneira mais saudável.
Algumas pessoas não conseguem
encarar isso pelo resto da vida. Quanto
mais a pessoa foge, pior fica sua
situação emocional.
No inconsciente, não há
registro de morte. Por essa falta,
nós não aprendemos a
lidar com a morte — afirma Viviane.
COMO
LIDAR COM A PERDA, SEGUNDO A PSICÓLOGA
VIVIANE SOLDATI:
Enfrentar o problema;
Verbalizar a situação;
Vivenciar a dor.
COMO
DIZER A UMA PESSOA QUE ALGUÉM
PRÓXIMO MORREU?
De acordo com Viviane Soldati, é
preciso ter bom senso. — Quando
uma pessoa está doente, nós
vamos ensaiando internamente a sua
morte. Mas quando a morte é
súbita, acontece de repente,
há uma grande dificuldade de
aceitação.
Tem-se
que preparar primeiro a pessoa e dizer
de maneira franca, direta e não
agressiva. É importante respeitar
a dor e ir de vagar, assim a pessoa
vai resolvendo a questão e
acolhendo a notícia.
O
CUIDADO COM AS CRIANÇAS:
Como dizer a uma criança que
ela perdeu uma pessoa muito querida?
Para Viviane Soldati, é preciso
muita cautela e paciência.
Ir
contando para a criança à
medida que ela vai perguntando. É
importante não negar, não
construir uma ilusão. Se a
criança descobre que está
sendo enganada, ele perde o pacto
de confiança com o mundo. Isso
pode trazer conseqüências
ao futuro jovem — explica Viviane.
Outro
elemento que deve ser observado é
que não se pode ‘jogar’
tudo de uma vez, é preciso
dosar. Assim a criança vai
‘digerindo’ a situação.
EU
PERDI MEU FILHO!
A dor de uma mãe é um
sentimento ainda inexplicável.
Chafiha
guarda todas as fotos do filho e quer
justiça.
— Quando uma mãe recebe
a notícia de que seu filho
morreu, é uma dor incontrolável
— conta Chafiha Salomão.
Uma complicação em uma
cirurgia de redução
de estômago levou seu filho,
Waldomiro Salomão, de 22 anos,
a perder a vida em fevereiro de 2001.
— A primeira reação
que você tem é de paralisia,
você fica sem reação,
o espaço e o tempo parecem
parar. Depois vem a realidade, é
hora de encarar os fatos — conta
Chafiha.
A família está na Justiça
contra o médico que realizou
a cirurgia.
— Foi um erro médico
que tirou meu filho de mim. Estou
lutando para que outras mães
não venham a viver o que estou
vivendo — comenta Chafiha.
A morte do filho levou a família
a criar um site com informações
sobre erro médico, a criação
de uma ONG está sendo estudada.
— Vou trabalhar enquanto tiver
forças para que a justiça
seja sempre feita — disse Chafiha.
(Texto
publicado no Jornal Panorama - 24/04/2005)