A
Ciência Médica - Um modelo
obsoleto.
Por Alex Botsaris*
Discutir
a qualidade da medicina e identificar
seus equívocos é um
enorme desafio que não pode
ser feito apenas por uma pessoa. Por
isso após a morte do meu filho
numa UTI infantil, causada por iatrogenia,
minha cabeça começou
a ficar coalhada de questionamentos,
idéias novas e percepções
de problemas estratégicos da
medicina, fiquei um pouco sem saber
o que fazer. Eu comecei a conversar
com alguns colegas, e a fazer anotações
à noite, quando chegava em
casa. Mas em vez de serenar meu íntimo,
isso só fez fervilhar mais
ainda o desejo de investigar melhor
os problemas que acreditava estarem
acontecendo. Portanto decidi que precisava
definir um começo para o trabalho,
e esse começo foi garimpar
material que fundamentasse essas idéias
e questionamentos. Afinal, pensei,
quem sou eu, pobre médico da
América Latina para desafiar
os fortes dogmas da ciência
médica propostos por cientistas
do primeiro mundo. Tem que haver alguém,
em algum lugar, que pense como eu.
Por
isso comecei meu trabalho de formiguinha.
Fui juntando tudo que aparecia que
eu podia identificar os problemas
que estava investigando. E foi bom
descobrir que não estava só
no mundo. Outros pesquisadores haviam
feito perguntas que estou fazendo
e ainda estão sem resposta,
e apontavam problemas que eu também
identifiquei. Juntando todo esse material
eu escrevi um livro, chamado Sem Anestesia:
O Desabafo e um Médico, da
Editora Objetiva, onde coloco meus
questionamentos sobre a medicina junto
com uma parte do material que consegui
obter em minhas pesquisas. Esse longo
artigo é um resumo desse material.
O estrutura do conhecimento médico
A
medicina foi uma ciência que
resultou da união de conhecimentos
empíricos, aspectos culturais
e a contribuição de
diversas ciências É interessante
notar como seus conceitos são
de natureza heterogênea e a
sua diversidade de origem . É
quase como um saco de gatos, e a dificuldade
é criar um sistema gerenciador
para lidar com essa miscelânea
conceitual. Conhecer bem essa heterogenicidade
é fundamental para que possamos
discutir seus outros aspectos e entender
seus erros estratégicos.
Conhecimentos empíricos: Conhecimentos
empíricos são aqueles
que não possuem uma comprovação
científica. Diversas técnicas
utilizadas na medicina derivaram de
conhecimentos empíricos gerados
pelo processo cultural. Por exemplo,
a vacinação contra varíola,
que foi ‘inventada’ por
Edward Jenner (1749-1823), na realidade
era uma prática conhecida das
populações rurais de
Glouchester, assim como em outros
locais da Europa. Há algum
tempo as pessoas que trabalhavam com
o gado haviam percebido que quem se
infectava com o vírus da vacinia
não contraía varíola.
Jenner, que havia adquirido uma propriedade
rural na região, um dia ficou
sabendo, através de uma ordenhadora
de vacas, que ela não temia
a varíola pois já tinha
se infectado com a sua congênere
bovina. Jenner então colheu
um raspado das lesões bovinas
e demonstrou no meio médico
londrino seu achado, inoculando-o
em si e em seus familiares, e mostrando
a resistência da família
à varíola. Apesar de
posteriormente ter sua eficácia
comprovada cientificamente, esse foi
um conhecimento de origem leiga. Muitos
outras práticas da medicina
derivaram de conhecimento leigo e
empírico. Um exemplo é
a cirurgia. Durante muitos anos ela
foi sendo desenvolvida por barbeiros,
os ‘barbeiros cirurgiões’.
Eles drenavam abcessos, retiravam
cistos e outras coisas simples. Os
médicos da época limitavam-se
a fazer as amputações,
cuja origem também era empírica.
Até meados da década
de 40 a maior parte dos conhecimentos
utilizados na medicina eram empíricos
ou gerados por aproveitamento do empirismo.
Até hoje técnicas empíricas
são introduzidas na medicina
ou no contexto cultural, para depois
serem comprovadas cientificamente,
como é o caso da acupuntura.
Na realidade, a prática da
medicina é recheada de empirismo.
Quando um médico prescreve
um medicamento, ele não sabe
se o paciente vai reagir bem ou se
vai ter um efeito colateral grave.
O médico funciona por tentativas.
Ele administra o medicamento, mas
ele não tem certeza como aquela
doença vai evoluir. Fazer prognósticos
precisos em medicina, às vezes,
é quase impossível.
E, por outro lado, é bastante
provável que nunca venhamos
a eliminar completamente o empirismo
da medicina, por mais que a ciência
avance, porque a complexidade e a
dependência sensível
das condições iniciais
na medicina são muito grandes.
Processo cultural: A medicina, antes
de ser ciência, é uma
função social necessária
dentro do contexto organizacional
dos grupos culturais. Ou seja desde
que o homem vem se organizando socialmente,
que há necessidade de que um
indivíduo, ou uma instituição,
assuma a função de assistir
as pessoas que perdem a saúde,
auxiliando-os a lidar com a doença,
a dor ou a incapacidade de alguma
forma. Por isso virtualmente quase
todos grupos culturais, atuais ou
antigos, desenvolvidos ou primitivos,
possuem um sistema médico qualquer.
É comum, nos sistemas primitivos,
que uma mesma pessoa acumule as funções
de líder religioso e representante
do sistema médico, confundindo
essas duas funções essenciais
à organização
social, como é o caso dos xamãs,
dos pagés das nossas tribos
indígenas, dos druídas
das civilizações antigas
da Europa, e dos curandeiros e feiticeiros
das tribos africanas e da Oceania.
Esse vínculo de líder
religioso e representante médico
vem da relação da morte
com a saúde e da atribuição
divina dos poderes da cura. Sociedades
mais avançadas e organizadas,
como os chineses, os indianos, os
judeus, os persas, os gregos e os
romanos, já possuíam
uma função de médico
distinta da atividade religiosa. É
interessante também constatar
que, mesmo na atualidade, em grupos
socialmente desassistidos, que não
tem acesso ao sistema de saúde,
algum membro do grupo assume essa
função. Temos nessa
função os raizeiros,
as rezadeiras, e os representantes
de algumas religiões, como
o espiritismo e a umbanda, etc. É
possível concluir, que antes
de ser uma ciência, a medicina
possui uma origem simbólica,
como uma função que
visa suprir uma necessidade que brota
do inconsciente coletivo da humanidade.
Portanto, sempre que temos um médico
atendendo um paciente, estabelece-se
um contexto simbólico que transcende
a questão científica.
Isso dá à atividade
médica uma dimensão
e uma responsabilidade humana que
só pode ser comparada há
relação que se forma
num confessionário. Não
só o paciente se despe frente
ao médico, como também
regride emocionalmente. Ele necessita
do auxílio de uma força
‘sobrenatural’ para vencer
o obstáculo aparentemente intransponível
formado pela doença. Por isso,
no momento que se estabelece a relação
médico-paciente, surge um universo
paralelo, formado pelo contexto simbólico
desses dois protagonistas, que é
extremamente amplo. É como
se cada xamã, cada pagé,
cada druída, enfim, todo contexto
simbólico da atividade médica,
associado à todo conhecimento
científico e tecnológico,
estivesse presente na frente do paciente
no instante da consulta, sintetizados
na figura do médico.
Esse processo cultural teve como resultado
o conhecimento empírico, que
por sua vez foi a base para o conhecimento
científico. Quando um paciente
ingere um comprimido de digoxina ,
para tratamento de sua insuficiência
cardíaca, todas as fases dessa
complexa interação está
presente. O processo cultural nas
populações da Europa
na antigüidade se estruturou
em torno dos druídas que detinham
a responsabilidade dos rituais médicos
e religiosos das aldeias. O sistema
dos druídas acumulou um conhecimento
no qual a dedaleira (Digitalis purpurea)
era usada para um contexto de fadiga,
falta de ar e edema. Um médico
aprendeu esse uso com uma curandeira
que, por sua vez, herdara-o do conhecimento
empírico do sistema dos druídas.
O médico verificou a eficácia
da dedaleira levou a planta para estudo.
Os estudos isolaram os glicosídeos
cardiotônicos, inclusive a digoxina.
A digoxina transformou-se numa das
principais drogas usadas na insuficiência
cardíaca, até os dias
de hoje.
Por fim, uma outra forma de encarar
o processo cultural é através
do arcabouço simbólico
e conceitual que ele proporciona aos
indivíduos, que no final das
contas poderão se transformar
em pacientes. Esse arcabouço
conceitual e simbólico é
que vai determinar a relação
dos indivíduos com o sistema
médico. É o processo
cultural que determina como as pessoas
interpretam a morte, a doença
e os diferentes tratamentos. O médico
também faz parte desse sistema
e sua atuação, e mesmo
a própria evolução
científica e tecnológica
do sistema, depende do arcabouço
conceitual e simbólico.
Conhecimento científico: O
conhecimento científico da
medicina moderna começou a
se formar no final do século
XVIII através da incorporação
do método científico
clássico de hipótese,
experimentação e comprovação.
No século XX com a introdução
da estatística e outras sofisticações,
a medicina teve um enorme avanço
tecnológico. Na formação
do conhecimento científico
da medicina atual temos um incrível
mosaico de diferentes áreas
do conhecimento. Temos a biologia,
a anatomia, a química orgânica,
a farmacologia, a genética,
a psicologia, e a fisiologia, que
surgiu como aquela ciência gerada
pela união de todas as outras.
A fisiologia trouxe novos conhecimentos
para o cenário da medicina:
Os conhecimentos de hidrodinâmica
foram utilizados para descrever as
funções do sistema cardiovascular,
os conhecimentos da dinâmica
dos gases auxiliou a entender a fisiologia
do pulmão, os conhecimentos
da física dos sólidos
em solução auxiliou
a criar a biofísica. Mas havia
também necessidade de entender
a doença, e esse conhecimento
derivou na patologia, ciência
materialista e descritiva que detalha
as lesões orgânicas.
Da patologia derivou a fisiopatologia,
cujo objetivo é explicar o
funcionamento errado do corpo, que
gera doença, e a etiologia,
que investiga a causa dessas doenças.
Mais recentemente houve uma grande
agregação de conhecimentos
na medicina de áreas ainda
mais variadas. Na área dos
exames de imagem, tem sido empregados
conceitos de engenharia, informática
e até da física quântica,
na área de próteses,
são empregados conhecimentos
de metalurgia, inovações
da tecnologia dos plásticos,
conhecimentos de eletricidade e eletrônica
são necessários para
a realização de exames
e tratamentos que vão do eletrocardiograma
ao mapeamento cerebral. Técnicas
de biotecnologia em genética,
endoscopia, cirurgia endoscópica
e laparoscópica, órgãos
artificiais ou transplantados, microcirurgia,
cirurgias empregando laser, e assim
por diante. Essa multiplicidade de
conhecimentos e agregação
de técnicas dá à
medicina um perfil único entre
as ciências, e é uma
das razões pela que eu proponho
que tenha uma abordagem diferenciada
As bases da ciência médica
A ciência médica moderna
identifica seu início na escola
hipocrática da ilha de Cós,
na Grécia Antiga.. A escola
hipocrática foi criada por
Hipócrates, famoso médico
grego e considerado o pai da medicina.
Hipócrates também foi
filósofo, tendo conhecido grandes
pensadores da antigüidade como
Demócrito, o criador do conceito
de átomo como constituinte
básico da matéria.
Hipócrates nasceu em 460 aC.
na ilha de Cós, na Grécia,
e faleceu em 370 aC. em Tessália.
Segundo Platão, Hipócrates
era descendente de Asclepias, famoso
médico e figura mítica
da antigüidade e citado na Ilíada,
do lado paterno, e de Herades, pelo
lado materno. Ele estudou medicina
num templo dedicado à Asclepias,
em Cós, formando um grupo chamado
de Asclepiadae (filhos de Asclepias).
Hipócrates viajou muito, tendo
clinicado e ensinado medicina em Atenas,
na Trácia, em Delos, e na Tessália.
A influência de Hipócrates
criou a escola hipocrática
em Cós, onde despontaram outros
nomes da medicina grega como Crisipos
e Praxágoras. Muitos autores
atribuem parte do trabalho de Hipócrates
a esses médicos assim como
outros de seus alunos. A obra de Hipócrates
está compilada numa série
de volumes conhecidos como a Coleção
Hipocrática (Corpus Hippocraticum),
que foi feita por Ptolomei, general
das tropas de Alexandre o grande,
e guardado na bibiloteca de Alexandria.
A Coleção Hipocrática
compreende também outros escritos
feitos posteriormente por autores
diversos, formando algo entre 70 e
100 volumes, dependendo da organização
feita nos trabalhos. No seu trabalho
Hipócrates faz descrições
acuradas de várias doenças
como epilepsia, febre amarela e gota,
além de discorrer sobre exame
físico, diagnóstico,
cirurgia e ginecologia e obstetrícia.
Outros conceitos originalmente introduzidos
por Hipócrates são os
de doença mental e psicologia.
O
trabalho de Hipócrates é
citado até hoje em inúmeros
textos médicos, como referência
de acuidade diagnóstica, ética
e raciocínio clínico.
Contudo uma análise mais detalhada
do trabalho de Hipócrates mostra
que suas idéias na questão
filosófica, estratégica
e conceitual da medicina são
desconsideradas ou mal interpretadas.
Hipócrates era um vitalista,
ou seja, acreditava que a matéria
viva possuía um diferencial,
a energia vital, que proporciona aos
seres vivos características
especiais. Daí sua famosa descrição
da face hipocrática (Fascies
Hippocraticus), correspondendo ao
momento que a energia vital está
se extinguindo no corpo, usada até
hoje pela medicina para caracterizar
o aspecto do doente que está
na eminência de falecer.
Hipócrates desenvolveu a teoria
dos humores, fluidos que, acumulados
no corpo poderiam ser causadores de
doença ou de sintomas, hoje
vista como uma interpretação
rudimentar da fisiologia corporal.
Contudo, na verdade, a teoria dos
humores é um sistema de relação,
que guarda semelhanças, por
exemplo com os sistemas de relação
da medicina ayurvédica e da
medicina chinesa. Esses sistemas de
relação são utilizados
para explicar a sintomatologia peculiar
e individual dos pacientes, assim
como as diferentes formas de reagir
aos estímulos do meio ambiente.
Hipócrates também desenvolveu
o método hipocrático,
uma proposta de raciocínio
médico lógico, livre
de influências religiosas, fundamental
para que um diagnóstico fosse
feito e um tratamento adequado pudesse
ser instituído. O método
hipocrático é incrivelmente
atual, e consiste nos seguintes pontos
principais:
Observar o todo: Segundo Hipócrates,
a observação acurada
e global do paciente é fundamental
para que nenhum detalhe seja perdido.
A observação incluía
aguçar todos os sentidos (audição,
visão, olfato, etc.) e observar
com calma e repetidamente, anotando
todas impressões, para ter
uma quadro descrito em sua globalidade.
A observação deveria
perceber mesmo aquilo que o paciente
omitisse ou não valorizasse.
Mesmo que o paciente sofresse de um
determinado órgão, todos
seus aspectos, tais como sono, estado
emocional, alimentação
e hábitos intestinais deviam
ser investigados. O segundo aspecto
desse ponto era entender todos os
achados num contexto de globalidade.
Isso permitiu a Hipócrates,
por exemplo, a fazer uma famosa cura
na Macedônia, de um rei diagnosticado
como portador de uma doença
consumptiva. Hipócrates, percebendo
que tratava-se de um problema emocional,
usou técnicas de persuação,
introduziu nos diálogos as
questões que atormentavam esse
rei, e conseguiu seu pleno restabelecimento.
Por isso Hipócrates se opunha
à classificação
das doenças segundo o órgão
afetado, pois considerava que sempre
o paciente adoecia como um todo e
não como uma parte. A compartimentalização
excessiva da medicina atual está
causando a perda progressiva da visão
global do paciente.
Estudar principalmente o paciente
e não a doença: Hipócrates
sustentava que cada caso é
um caso. A manifestação
da doença não dependia
apenas de sua natureza, mas também
da natureza do doente e de seus hábitos
de vida. Para ele isso explicava porque
uma mesma doença podia evoluir
de forma tão diferente em pacientes
distintos. Esse ponto relaciona-se
com a individualização
dos tratamentos. Trata-se de outra
base do método hipocrático
que não é valorizado
pela medicina convencional, excessivamente
voltada para o conceito de doença.
Avaliar com fidedignidade: Muitos
pacientes de Hipócrates faleceram.
Mesmo assim seus casos foram relatados
detalhadamente e o médico admitiu
que a terapêutica falhara. Segundo
Hipócrates, não a evolução
do conhecimento, como também
a instituição de novas
estratégias de tratamento só
podiam ocorrer se houvesse um relato
fidedigno da resposta do paciente
à terapêutica. A falta
de mecanismos de avaliação
da iatrogenia e da satisfação
dos pacientes mostra que a medicina
também tem sido pouco comprometida
com esse objetivo.
Promover o equilíbrio natural:
Segundo Hipócrates a natureza
tem uma tendência a buscar um
equilíbrio natural. Na doença,
os mecanismos patológicos bloqueariam
a força de equilíbrio
corporal. Portanto o papel da medicina
seria estimular esse processo de busca
do equilíbrio, assim como evitar
o fator causador da doença.
Essa concepção de doença
como ruptura do equilíbrio
orgânico vinculada ao tratamento
voltado ao reequilíbrio do
organismo é o mesmo conceito
que encontramos nas medicinas tradicionais
como a medicina chinesa e a medicina
ayurvédica . Esse conceito,
que é muito interessante, foi
perdido, como objetivo principal,
no modelo da medicina convencional.
A discussão acima permite concluir
que a medicina vem se afastando cada
vez mais dos conceitos básicos
do método proposto por Hipócrates.
Até os pontos fundamentais
do juramento de Hipócrates,
prestado por todos estudantes de medicina
quando se formam estão se perdendo.
Vemos, cada vez com mais freqüência,
colegas médicos que parecem
esquecer o juramento prestado e cometem
os piores desvios da ética,
comportam-se de forma mercantilista
ou tornam-se frios e desumanos.
Cornelius Celso foi o médico
mais expressivo da Roma antiga e influenciou
muito a medicina da Europa Medieval.
Celso nasceu em Verona, mas não
existe o registro exato da data do
seu nascimento, nem de sua morte.
Versado em várias ciências,
como agricultura, leis, filosofia
a retórica, Celso escreveu
o livro Da Medicina, primeiro tratado
médico a ser editado após
a invenção da imprensa
por Guttemberg. O trabalho de Celso
resultou da reunião da experiência
de diversos médicos e de todos
os escritos que conseguiu reunir nessa
época. Algumas partes dos escritos
de Celso são remarcáveis.
Ele possui uma descrição
detalhada de vários procedimentos
cirúrgicos como amputações,
hérnia escrotal, ccircuncisão
e restauração do prepúcio
, e sobre o tratamento de feridas
profundas. Neste trabalho consta a
primeira descrição de
uma ligadura de vaso sangüíneo
para estancar uma hemorragia.
Celso também fez contribuições
na área da clínica.
A primeira descrição
dos quatro sinais clássicos
da inflamação (rubor
et tumor cum calor et dolor) foi feita
em seu tratado e é atual até
hoje. Celso possuía um rigor
muito grande nas terapêuticas
que aprovava. No seu tratado recomenda
apenas repouso ou exercícios,
dieta, ventosas, massagens e cirurgia.
Ele foi um severo crítico do
uso da maioria das plantas medicinais
e de encantamentos, pois considerava
a feitiçaria um método
rudimentar e contrário à
religião.
O tratado Da Medicina foi redescoberto
pela igreja católica após
sua publicação em1478,
servindo como base para os conceitos
que dominaram o pensamento médico
até o século XVIII.
Influenciado pelo médico grego
Asclepíades, Celso rejeitava
o conceito hipocrático que
o corpo possui forças curativas
naturais e acreditava que a cura dependia
de uma intervenção do
médico, como no caso de uma
cirurgia. Esses conceitos exerceram
influência sobre a medicina
até hoje, sendo a semente da
tendência intervencionista que
predomina na medicina atual.
Contudo, o autor da antigüidade
que mais influenciou a medicina e
a farmacologia foi o Galeno. Galeno
era um homem vaidoso, autoritário,
dogmático e crítico
severo. Contudo, também possuía
várias qualidades. Era um observador
cuidadoso e detalhista, sua mente
era criativa e coalhada de idéias
originais, e possuía um raciocínio
rápido, sendo exímio
debatedor.
Galeno
nasceu na cidade grega de Pergamum
em 129 dC. Em sua educação
básica ele conheceu as ciências
naturais, a matemática a filosofia
e geografia. Quando tinha 14 anos
teve um sonho com Esculápio,
o Deus da medicina dizendo que seu
caminho era tornar-se médico.
Estudou medicina, à partir
dos 16 anos, com sábios de
sua cidade, onde foi introduzido ao
trabalho de Hipócrates e Dioscórides.
Após a morte de seu pai, Galeno
viajou por toda a Grécia, visitando
Creta, Chipre, Corinto e Alexandria,
entre outras cidades. Durante suas
viagens ele teve oportunidade de estudar
medicina com diversos médicos,
cirurgiões e anatomistas da
época, além de ampliar
seus conhecimentos sobre plantas medicinais.
De volta a Pergamom, alguns anos após,
foi eleito médico dos gladiadores,
o que contribuiu para aumentar sua
experiência em cirurgia e no
tratamento de lesões traumáticas.
Em 164 Galeno deixou Pergamus novamente,
dirigindo-se para Roma para divulgar
suas idéias na capital do Império.
Em Roma destacou-se como médico,
tendo cuidado de Severus, futuro imperador.
Galeno conseguiu influenciar muito
a medicina, tendo autoridades e pensadores
importantes na platéia de suas
conferências, e disferindo críticas
contundentes contra seus adversários
de outras escolas médicas (metodistas,
pneumatistas e empíricos).
Algum tempo após voltou para
Pérgamo, mas sua estadia aí
foi curta, pois foi convocado por
Marco Aurélio para atuar como
médico das tropas nas Guerras
Germânicas. Após essas
guerras ficou vivendo em Roma, tendo
presenciado o incêndio de 191,
quando diversas de suas obras queimaram.
A maioria dos historiadores afirma
que Galeno faleceu na Cecília
no ano 200 dC.
A obra de Galeno influenciou profundamente
a medicina por cerca de quinze séculos.
Ao contrário de Hipócrates,
que assumia friamente seus insucessos,
Galeno era dogmático e utilizava-se
de argumentos teológicos para
explicar a evolução
ruim de seus pacientes. Valendo-se
de um argumento de Aristóteles,
de que ‘a natureza não
faz nada sem propósito’,
e acrescentando ‘e eu conheço
esse propósito’, Galeno
assumia uma postura onisciente e autoritária.
Esses argumentos funcionaram como
luva para as pretensões da
igreja católica, que utilizou
os argumentos teológicos de
Galeno para fundamentar suas doutrinas,
durante a idade média e parte
do renascimento. As obras de Galeno,
como as de Celso, foram editadas logo
após a invenção
da imprensa, contribuindo para a disseminação
das suas idéias na Europa medieval.
Galeno contribuiu com importantes
conhecimentos para a fisiologia. Foi
ele que mostrou que o sangue circulava
nos vasos, e que as veias levavam
o sangue da periferia para o coração,
e que as artérias continham
sangue e não ar. Ele também
propôs a teoria que os nervos
se conectavam com a medula e essa
com o cérebro. Ele realizou
experiências com animais, demonstrando
que o coração continuava
batendo após a secção
do nervo vago, ou que os reflexos
se modificavam após a secção
da medula. Foi ele o primeiro médico
a discorrer sobre os cuidados para
a preparação de medicamentos,
incluindo a metodologia para a preparação
de pós e extratos. Por isso
ele é considerado o pai da
farmácia, e as preparações
simples são chamadas até
hoje de ‘formas galênicas’.
Ele juntava várias plantas
medicinais em fórmulas próprias
para tratar os humores afetados baseado
nas suas qualidades farmacológicas
tradicionais (frio e quente, seco
e úmido). Segundo Galeno uma
doença de calor exigia o tratamento
através de uma erva fria, um
conceito muito parecido com o que
é preconizado pela medicina
chinesa.
Sua obra incluiu tratados sobre anatomia,
fisiologia, farmacologia, patologia,
cirurgia, dietética, higiene
e redução de luxações
e fraturas. A parte da obra de Galeno
que exerceu influência e serviu
como base da medicina do século
XVIII foi aquela baseada em conceitos
descritivos e dogmáticos como
as descrições anatômicas
e as técnicas de preparo de
medicamentos. Os conceitos vitalistas
e holísticos como o sistema
de relação dos 4 humores
foram sendo progressivamente esquecidos
e hoje em dia são vistos como
uma crença curiosa e destituída
de interesse científico.
No fim do século XVIII e durante
o século XIX, a medicina pretendeu
resistir a influência da física
clássica. Newton via o universo
como um relógio, com leis simples
e que determinavam o seu funcionamento
numa cadência perfeita e dinâmica.
As idéias de Newton formam
transportadas para a medicina por
Descartes. Segundo o pensador francês,
o corpo é um relógio
também. Ele é composto
de partes, os órgãos
que executam funções
específicas e que podem ser
entendidas à luz da ciência.
A resistência da medicina a
essas idéias está bem
caracterizada no protesto vitalista
de Diderot, médico, também
de nacionalidade francesa. No artigo
que escreveu para a Enciclopédia,
nessa época, Diderot classificou
a química, a bilologia e a
medicina como ciências onde
havia necessidade de arte e sensibilidade
para a percepção dos
sinais característicos da cada
situação. Para tanto
era necessário um observação
obstinada e muita assiduidade, características
absolutamente distintas do imperialismo
abstrato dos newtonianos. Segundo
o vitalismo, não era possível
aplicar as teorias da física
à medicina pois a vida subtendia
um princípio vital, uma energia
derivada da divindade e que não
poderia ser compreendida pela ciência.
O vitalismo atingiu sua plenitude
através de Stahl, no incício
do século XIX. Ele nota que
as leis universais da química
que explicam a decomposição
das substâncias não se
aplicam aos seres vivos enquanto estão
em vida. Apesar de ser constituído
de substâncias frágeis
e instáveis quimicamente, o
ser humano resiste à decomposição
durante toda sua vida. Isso só
poderia ser explicado através
de uma força desconhecida que
seria o princípio vital. Stahl
foi o criador do primeiro sistema
químico coerente e que resultou
na química atual.
Durante o século XIX o vitalismo
foi sendo substituído pelo
reducionismo , apesar de ser o pensamento
dominante na classe médica.
Vários fatores começaram
a contribuir para isso. O primeiro
foi a invenção do microscópio.
Com isso foi possível descobrir
que os tecidos eram feitos de células.
Em seguida Pasteur descobriu as primeiras
bactérias e criou o conceito
que as doenças eram causadas
por agressão de microorganismos.
A influência de Pasteur sobre
a medicina foi tão grande,
que até hoje, cem anos após
sua morte, os pesquisadores ainda
tem o cacuete de buscar uma bactéria
ou um vírus para explicar doenças
cujas causas não estão
bem definidas. Com isso o modelo reducionista
e mecanisista começou a dominar
o pensamento da ciência médica,
influenciando profundamente seu desenvolvimento
no século XX.
O conflito de identidade da ciência
médica
Essa bipolaridade conceitual, vitalismo
versus reducionismo, gerou um conflito
que persiste, até hoje, mal
elaborado, seja na cabeça dos
médicos, seja no meio acadêmico,
onde se produz a ciência, seja
na forma como a sociedade vê
a medicina. Vitalismo versus reducionismo
gera conflitos como medicina ciência
humana versus medicina ciência
exata, ou medicina alternativa versus
medicina convencional, ou mesmo visão
espiritual do ser humano versus visão
científica.
Portanto no decorrer da história
recente da medicina diversos médicos
se fizeram a mesma pergunta (qual
a essência da medicina), obtendo
respostas diferentes. Com isso foram
sendo propostos caminhos que parecem
ser essencialmente diferentes, que
culminaram a riqueza de correntes
de pensamento existentes na medicina
atual. Vale à pena lembrar
alguns dessas idéias originais
e entender a sua interação
dinâmica até os dias
de hoje.
O
vitalismo, representado por Diderot
e Stahl, teve seu momento mais significativo
na medicina com a fundação
da homopatia pelo alemão Samuel
Hanneman. A idéias de Newton
e Descartes, que fundamentam a corrente
reducionista, tornaram-se dominantes
com a descoberta do microscópio
e dos microorganismos e perpetuam-se
até hoje como espinha dorsal
do pensamento científico médico.
Aparentemente
vitalismo e reducionismo são
opostos incompatíveis. Contudo
eles podem coexistir de forma construtiva
num mesmo modelo. O melhor exemplo
de coexistência entre essas
duas formas de encarar a natureza
é a alquimia. Através
dos procedimentos da alquimia muita
ciência no modelo convencional
foi produzida. Newton dedicou mais
tempo de sua via à alquimia
que à física. Alguns
autores, recentemente, aventaram a
possibilidade da descoberta das leis
da física do macrocosmo podem
terem sido resultado de um longo processo
de amadurecimento, feito através
da alquimia. A própria química
inorgânica nasceu da alquimia.
Paracelsius, um médico da antiguidade,
foi um pioneiro em aproximar a medicina
da alquimia. Ele declarou que o objetivo
principal da alquimia não era
a transmutação de elementos
em metais preciosos, mas sim a fabricação
de medicamentos e a compreensão
dos processos de transformação
da natureza e do organismo humano.
Ao juntar a alquimia com a medicina,
Paracelsius conseguiu um modelo que
misturava de forma harmônica
vitalismo e reducionismo. Isso fez
com que influenciasse tanto a farmacologia
clássica, como a homeopatia.
Paracelsius é o codinome do
médico alemão Theophrastus
Bombast Von Hohenhein, nascido em
1490 em Eisiedeln. Este codinome foi
criado pelo próprio, que era
extremamente vaidoso, e se dizia superior
a Celso. Paracelsius estudou medicina
na Universidade da Basiléia,
e iniciou sua prática médica
nas Minas de Tirol, onde começou
a relacionar as doenças apresentadas
pelos mineiros, à exposição
excessiva aos minerais. A descoberta
do papel patológico de alguns
minerais influenciou todo seu trabalho
futuro, aproximando-o da Alquimia.
Em 1526 ele retornou para Basiléia,
onde foi convidado a ensinar medicina
na universidade. Segundo historiadores,
Paracelsius queimou as obras de Galeno
e Avicena durante uma aula, para demonstrar
que ‘medicina se faz olhando
para o futuro, e não para o
passado’. Seu interesse e seus
experimentos com minerais continuaram
e ele desenvolveu um tratamento à
base de banhos com mercúrio,
enxofre, ferro, chumbo e arsênico.
Ele também desenvolveu tinturas
alcoólicas de várias
plantas e resgatou a visão
platônica que o homem está
inserido no universo, e para trata-lo
é preciso entende-lo sob esta
ótica. Dentro desta concepção
holística, ele propôs
a teoria das assignaturas, que ensina
que as características morfológicas
e ecológicas das plantas tem
relação com sua atividade
no corpo, concepção
que também pode ser encontrada
em várias medicinas tradicionais
do oriente. Segundo Paracelsius a
doença era causada por um desequilíbrio
nos elementos alquímicos do
corpo (ferro, sal, mercúrio
e enxofre).. Seu trabalho influenciou
muitos médicos famosos, como
o herbalista John Gerard e Samuel
Hanneman, criador da Homeopatia. Paracelcius
também contribuiu para a descrição
da farmacologia de várias plantas
e é um dos pais da farmacologia
moderna.
Com a organização do
pensamento científico por Newton
e Descartes, os conceitos da alquimia
foram cada vez mais se distanciando
da ciência clássica.
As idéias da alquimia não
eram bem vistas pela igreja católica,
que perseguiu os alquimistas através
da Santa Inquisição.
Tudo isso acabou sufocando a alquimia
de tal forma que ela praticamente
desapareceu. Enquanto isso a ciência
clássica conseguiu manter uma
relação de tolerabilidade
com a igreja, e manteve seu crescimento.
A criação do microscópio
e o seu emprego na medicina, onde
sobressai o trabalho de Marcello Malpighi
e de Antony van Leeuwenhock, sela
definitivamente a hegemonia do reducionismo
sobre o vitalismo na medicina. Leeuwenhock
foi o primeiro a descrever os glóbulos
vermelhos do sangue, as estrias do
músculo e os espermatozóides.
Malpighi além de grande observador,
desenvolveu as técnicas de
preparo dos tecidos para observação
em microscópio, sendo considerado
o pai da histologia moderna. Foi olhando
no microscópio que Pasteur
pode identificar as primeiras bactérias
e descrever seu papel em algumas doenças.
As correntes vitalistas na medicina
mantiveram-se vivas, mas cada vez
isoladas em pequenas comunidades ou
em grupos de médicos, alijadas
do meio universitário. Com
isso homeopatia e a medicina antroposofica
ficam limitadas aos consultórios
de seus seguidores e sofreram um processo
de perseguição. Os homeopatas
reagiram, radicalizando sua posição
e recusando-se a reconhecer os avanços
da medicina alopática. Esse
processo culmina com a proibição
e o banimento da homeopatia dos Estados
Unidos, no final do século
XIX. Criou-se então uma situação
de litígio. A ciência
negava-se, como nega-se até
hoje, a dar crédito a qualquer
conhecimento que não fosse
‘científico’, ou
seja desenvolvido conforme os métodos
propostos por ela mesma. As correntes
vitalistas insistiam em suas crenças,
que acreditavam não poderem
ser comprovadas pelo modelo chamado
de científico. Por isso elas
tornaram-se medicinas alternativas,
e continuaram subsistindo na marginalidade.
Mesmo assim a medicina ainda conservou
algumas qualidades do vitalismo, através
do holismo . Até a década
de 60 ainda existia a figura do clínico,
aquele que conduzia e gerenciava o
processo de tratamento, que conhecia
o histórico do paciente e resolvia
o seus problemas comuns de saúde,
enfim que mantinha uma visão
global da pessoa. Mas a massificação
do tecnicismo acabou com os resquícios
de holismo que haviam na medicina
convencional. Chegamos à um
ponto onde é fundamental resolver
a divisão de fragmenta a medicina.
É preciso resolver o conflito
de identidade entre vitalismo e o
reducionismo. O desafio para o futuro
é conceber um modelo de medicina
que permita ao médico lidar
com idéias vitalistas e reducionistas
sem que isso resulte em conflito.
Pelo contrário, o ideal é
aproveitar o que cada visão
dessas tem de positivo e construtivo,
para agregar à nova medicina
que cuidará do ser humano nesse
século que se inicia. Se o
modelo da alquimia foi eficiente em
permitir uma convivência construtiva
entre reducionismo e vitalismo, no
contexto da ciência renascentista,
com certeza há espaço
para a criação de um
modelo adequado à medicina
atual.
O equívoco nas bases conceituais
Equívocos conceituais são
idéias básicas sobre
a vida, a natureza de forma geral
e o ser humano que a ciência
médica possui mas que não
combinam com a essência da vida.
Assim quando planeja seus estudos,
a ciência leva em consideração
apenas essas idéias básicas,
e os seus resultados vem contaminados
por elas gerando produtos que se opõe
à essência da vida das
pessoas. Eu procurei identificar cada
equívovo desses, e explica-lo
da forma mais simples possível.
O interessante é notar que
a maioria desses equívocos
resulta do problema básico
que apontei acima, que é a
negação do vitalismo.
O mecanicismo e a linearidade
Como vimos, Newton, um dos pais da
ciência via o universo como
um relógio. O universo de Newton
funcionava de forma precisa, cada
elemento cumprindo seu papel à
um determinado tempo, como engrenagens
em cadeia que acionam uma resultante
final. Descartes propôs que
o corpo humano era uma máquina
que funcionava segundo os mesmos princípios
do universo de Newton. Este conceito
cria idéia que tudo, no corpo
humano, funciona guardando uma relação
linear de causa e efeito. É
o que chamo de visão mecanicista
da fisiologia do organismo humano
como representado no esquema abaixo:
Fator
desencadeador ? efeito/causa 1 ? efeito/causa
2 ? efeito/causa 3
Exemplificando vamos adotar como modelo
a regulação da glicose
no sangue. Na forma clássica
da medicina encarar o problemas temos
que a seqüência é
que a pessoa tem come, a glicose se
eleva, e a pâncreas secreta
insulina e a glicose baixa:
Ingestão
de comida ? aumento da glicose ? secreção
de insulina ? redução
da glicose
Contudo hoje já existe suficiente
informação para a medicina
deduzir que nada no corpo funciona
dessa forma. O que vemos, nos mecanismos
fisiológicos são múltiplos
fatores influenciando-se mutuamente
e gerando a resposta é uma
resultante do somatório de
influências ocorridas num determinado
momento. Esse tipo de interação,
muito mais complexa, poderia ser representada
por um esquema como o seguinte:

No
esquema acima, que se aproxima muito
mais da realidade fisiológica,
vários tipos de influencia
afetam o fator central que é
o estudado. Podem haver fatores de
influência que atuam indiretamente
(influências 1, 3, 6 e 8), e
interação paralela entre
outros fatores de influência
(como entre influências 2 e
3). Colocando o exemplo da glicose
no esquema acima nota-se como ele
modifica completamente a sua natureza
Como demonstrado no esquema anterior,
vários outros fatores influenciam
a taxa de glicose no sangue, além
da insulina, interagindo de forma
complexa entre si. A taxa final de
glicose vai depender, então,
de uma interação entre
esses diferentes fatores de influência.
A realidade é que quase todos
processos que ocorrem no corpo seguem
esse modelo de interação
complexa entre vários fatores
de influência, mesmo que também
haja um mecanismo principal, como
a insulina funciona para a glicose.
Com o desenvolvimento da informática,
o ideal seria desenvolvermos modelos
tridimensionais para facilitar a visualização
de como ocorrem os processos no corpo
humano para o médico, quebrando
a tendência ao raciocínio
mecanicista e linear que os médicos
tendem a desenvolver.
Atualmente, o cientista russo Ilya
Prigogine, prêmio Nobel de física,
é uma das vozes mais ativas
no questionamento de diversos conceitos
usados na biologia e na medicina.
Segundo Prigogine essas áreas
carecem de mudanças profundas
para que seu protocolos experimentais
se adaptem às realidades que
pretendem estudar, e que muitos dos
resultados tidos como científicos,
na atualidade, terão que ser
revistos. Ele juntou-se à brilhante
bióloga belga Isabelle Stengers
para escrever um importante livro
sobre filosofia da ciência onde
colocam vários conceitos que
considero, além de atuais e
muito pertinentes, fundamentais para
qualquer profissional da área
biomédica que deseje se prepara
para as mudanças na ciência
do futuro. O livro, chamado de ‘A
Nova Aliança’ propõe
uma nova relação entre
ciência, filosofia e o mundo
onde vivemos, além de levantar
vários questionamentos, que
aproveitarei para suportar minhas
idéias.
Neste livro, Prigogine e Stengers
comentam que, um modelo científico,
para ser eficiente, necessita de uma
linguagem adequada à realidade
que pretende estudar e uma boa concepção
do real, em termos do contexto onde
se insere o objeto de estudo. Ou seja,
ao estudar um fenômeno qualquer,
para que o experimento tenha sucesso,
há necessidade de partir-se
de uma hipótese que corresponda
à essência desse fenômeno,
e utilizar um método de avaliação
do experimento que possa avalia-lo
de forma efetiva. Caso contrário
os resultados levarão à
uma falsa avaliação
dos objeto do estudo. Portanto não
é mais possível continuarmos
com protocolos de estudo em medicina
baseados em raciocínios lineares.
Prigogine e Stengers também
discutem a questão da complexidade
na biologia. Em termos de variáveis,
num organismo vivo a complexidade
é elevada ao infinito. Os modelos
científicos, se não
podem incluir toda esta complexidade,
não podem ser formulados como
se ela não existisse. As variáveis
que não podem ser incluídas
como tal ,podem ter uma outra representação
nos modelos matemáticos desses
estudos. E isso exigirá a elaboração
de novos modelos de avaliação
para as experiências realizadas
nas áreas de biologia e medicina.
Uma
estratégia semelhante foi utilizada
por Boltzmann ao estudar a cinética
dos gases. Usando a metodologia da
física clássica Boltzmann
teria que calcular a velocidade e
a direção de todas as
moléculas do gás para
chegar as conclusões que pretendia.
A complexidade era imensa e muitos
físicos duvidaram de seu trabalho.
Mas ele observou, ao final de muitas
experiências, que independente
das condições iniciais
da experiência, havia uma tendência
ao gás de assumir alguns comportamentos
definidos ao final de um determinado
período. Com isso ele elaborou
a teoria das flutuações
e da mecânica estatística
dos gases que é usada até
hoje na física. Se Boltzmann
encontrou uma solução
para a cinética dos gases,
deverá haver outra solução
para os sistemas complexos da biologia.
A compartimentalização
excessiva da ciência médica.
Compartimentalização
é uma estratégia que
se baseia na subdivisão de
um sistema complexo, como os organismos
biológicos, em subsistemas
mais simples que podem ser estudados
em separado. Como conseqüência
a fisiologia do corpo humano tende
a ser estudada através da fisiologia
de sistemas estanques e isolados,
como se esses sistemas não
se comunicassem entre si. Essa estratégia
deriva da influência do filósofo
e matemático francês
René Descartes sobre a medicina.
Segundo Descartes a maneira correta
de analisar um problema complexo é
subdividi-lo em vários problemas
mais simples, que podem ser tratados
em separado. Essa estratégia
consiste então em dividir progressivamente
o corpo humano em sistemas cada vez
menores e mais simples, para entender
como eles funcionam, ou seja o reducionismo
que já foi citado. Portanto
são questões com a mesma
origem conceitual, resultante do conflito
entre