A
Ciência Médica - Um modelo
obsoleto.
Por Alex Botsaris*
Discutir
a qualidade da medicina e identificar
seus equívocos é um
enorme desafio que não pode
ser feito apenas por uma pessoa. Por
isso após a morte do meu filho
numa UTI infantil, causada por iatrogenia,
minha cabeça começou
a ficar coalhada de questionamentos,
idéias novas e percepções
de problemas estratégicos da
medicina, fiquei um pouco sem saber
o que fazer. Eu comecei a conversar
com alguns colegas, e a fazer anotações
à noite, quando chegava em
casa. Mas em vez de serenar meu íntimo,
isso só fez fervilhar mais
ainda o desejo de investigar melhor
os problemas que acreditava estarem
acontecendo. Portanto decidi que precisava
definir um começo para o trabalho,
e esse começo foi garimpar
material que fundamentasse essas idéias
e questionamentos. Afinal, pensei,
quem sou eu, pobre médico da
América Latina para desafiar
os fortes dogmas da ciência
médica propostos por cientistas
do primeiro mundo. Tem que haver alguém,
em algum lugar, que pense como eu.
Por
isso comecei meu trabalho de formiguinha.
Fui juntando tudo que aparecia que
eu podia identificar os problemas
que estava investigando. E foi bom
descobrir que não estava só
no mundo. Outros pesquisadores haviam
feito perguntas que estou fazendo
e ainda estão sem resposta,
e apontavam problemas que eu também
identifiquei. Juntando todo esse material
eu escrevi um livro, chamado Sem Anestesia:
O Desabafo e um Médico, da
Editora Objetiva, onde coloco meus
questionamentos sobre a medicina junto
com uma parte do material que consegui
obter em minhas pesquisas. Esse longo
artigo é um resumo desse material.
O estrutura do conhecimento médico
A
medicina foi uma ciência que
resultou da união de conhecimentos
empíricos, aspectos culturais
e a contribuição de
diversas ciências É interessante
notar como seus conceitos são
de natureza heterogênea e a
sua diversidade de origem . É
quase como um saco de gatos, e a dificuldade
é criar um sistema gerenciador
para lidar com essa miscelânea
conceitual. Conhecer bem essa heterogenicidade
é fundamental para que possamos
discutir seus outros aspectos e entender
seus erros estratégicos.
Conhecimentos empíricos: Conhecimentos
empíricos são aqueles
que não possuem uma comprovação
científica. Diversas técnicas
utilizadas na medicina derivaram de
conhecimentos empíricos gerados
pelo processo cultural. Por exemplo,
a vacinação contra varíola,
que foi ‘inventada’ por
Edward Jenner (1749-1823), na realidade
era uma prática conhecida das
populações rurais de
Glouchester, assim como em outros
locais da Europa. Há algum
tempo as pessoas que trabalhavam com
o gado haviam percebido que quem se
infectava com o vírus da vacinia
não contraía varíola.
Jenner, que havia adquirido uma propriedade
rural na região, um dia ficou
sabendo, através de uma ordenhadora
de vacas, que ela não temia
a varíola pois já tinha
se infectado com a sua congênere
bovina. Jenner então colheu
um raspado das lesões bovinas
e demonstrou no meio médico
londrino seu achado, inoculando-o
em si e em seus familiares, e mostrando
a resistência da família
à varíola. Apesar de
posteriormente ter sua eficácia
comprovada cientificamente, esse foi
um conhecimento de origem leiga. Muitos
outras práticas da medicina
derivaram de conhecimento leigo e
empírico. Um exemplo é
a cirurgia. Durante muitos anos ela
foi sendo desenvolvida por barbeiros,
os ‘barbeiros cirurgiões’.
Eles drenavam abcessos, retiravam
cistos e outras coisas simples. Os
médicos da época limitavam-se
a fazer as amputações,
cuja origem também era empírica.
Até meados da década
de 40 a maior parte dos conhecimentos
utilizados na medicina eram empíricos
ou gerados por aproveitamento do empirismo.
Até hoje técnicas empíricas
são introduzidas na medicina
ou no contexto cultural, para depois
serem comprovadas cientificamente,
como é o caso da acupuntura.
Na realidade, a prática da
medicina é recheada de empirismo.
Quando um médico prescreve
um medicamento, ele não sabe
se o paciente vai reagir bem ou se
vai ter um efeito colateral grave.
O médico funciona por tentativas.
Ele administra o medicamento, mas
ele não tem certeza como aquela
doença vai evoluir. Fazer prognósticos
precisos em medicina, às vezes,
é quase impossível.
E, por outro lado, é bastante
provável que nunca venhamos
a eliminar completamente o empirismo
da medicina, por mais que a ciência
avance, porque a complexidade e a
dependência sensível
das condições iniciais
na medicina são muito grandes.
Processo cultural: A medicina, antes
de ser ciência, é uma
função social necessária
dentro do contexto organizacional
dos grupos culturais. Ou seja desde
que o homem vem se organizando socialmente,
que há necessidade de que um
indivíduo, ou uma instituição,
assuma a função de assistir
as pessoas que perdem a saúde,
auxiliando-os a lidar com a doença,
a dor ou a incapacidade de alguma
forma. Por isso virtualmente quase
todos grupos culturais, atuais ou
antigos, desenvolvidos ou primitivos,
possuem um sistema médico qualquer.
É comum, nos sistemas primitivos,
que uma mesma pessoa acumule as funções
de líder religioso e representante
do sistema médico, confundindo
essas duas funções essenciais
à organização
social, como é o caso dos xamãs,
dos pagés das nossas tribos
indígenas, dos druídas
das civilizações antigas
da Europa, e dos curandeiros e feiticeiros
das tribos africanas e da Oceania.
Esse vínculo de líder
religioso e representante médico
vem da relação da morte
com a saúde e da atribuição
divina dos poderes da cura. Sociedades
mais avançadas e organizadas,
como os chineses, os indianos, os
judeus, os persas, os gregos e os
romanos, já possuíam
uma função de médico
distinta da atividade religiosa. É
interessante também constatar
que, mesmo na atualidade, em grupos
socialmente desassistidos, que não
tem acesso ao sistema de saúde,
algum membro do grupo assume essa
função. Temos nessa
função os raizeiros,
as rezadeiras, e os representantes
de algumas religiões, como
o espiritismo e a umbanda, etc. É
possível concluir, que antes
de ser uma ciência, a medicina
possui uma origem simbólica,
como uma função que
visa suprir uma necessidade que brota
do inconsciente coletivo da humanidade.
Portanto, sempre que temos um médico
atendendo um paciente, estabelece-se
um contexto simbólico que transcende
a questão científica.
Isso dá à atividade
médica uma dimensão
e uma responsabilidade humana que
só pode ser comparada há
relação que se forma
num confessionário. Não
só o paciente se despe frente
ao médico, como também
regride emocionalmente. Ele necessita
do auxílio de uma força
‘sobrenatural’ para vencer
o obstáculo aparentemente intransponível
formado pela doença. Por isso,
no momento que se estabelece a relação
médico-paciente, surge um universo
paralelo, formado pelo contexto simbólico
desses dois protagonistas, que é
extremamente amplo. É como
se cada xamã, cada pagé,
cada druída, enfim, todo contexto
simbólico da atividade médica,
associado à todo conhecimento
científico e tecnológico,
estivesse presente na frente do paciente
no instante da consulta, sintetizados
na figura do médico.
Esse processo cultural teve como resultado
o conhecimento empírico, que
por sua vez foi a base para o conhecimento
científico. Quando um paciente
ingere um comprimido de digoxina ,
para tratamento de sua insuficiência
cardíaca, todas as fases dessa
complexa interação está
presente. O processo cultural nas
populações da Europa
na antigüidade se estruturou
em torno dos druídas que detinham
a responsabilidade dos rituais médicos
e religiosos das aldeias. O sistema
dos druídas acumulou um conhecimento
no qual a dedaleira (Digitalis purpurea)
era usada para um contexto de fadiga,
falta de ar e edema. Um médico
aprendeu esse uso com uma curandeira
que, por sua vez, herdara-o do conhecimento
empírico do sistema dos druídas.
O médico verificou a eficácia
da dedaleira levou a planta para estudo.
Os estudos isolaram os glicosídeos
cardiotônicos, inclusive a digoxina.
A digoxina transformou-se numa das
principais drogas usadas na insuficiência
cardíaca, até os dias
de hoje.
Por fim, uma outra forma de encarar
o processo cultural é através
do arcabouço simbólico
e conceitual que ele proporciona aos
indivíduos, que no final das
contas poderão se transformar
em pacientes. Esse arcabouço
conceitual e simbólico é
que vai determinar a relação
dos indivíduos com o sistema
médico. É o processo
cultural que determina como as pessoas
interpretam a morte, a doença
e os diferentes tratamentos. O médico
também faz parte desse sistema
e sua atuação, e mesmo
a própria evolução
científica e tecnológica
do sistema, depende do arcabouço
conceitual e simbólico.
Conhecimento científico: O
conhecimento científico da
medicina moderna começou a
se formar no final do século
XVIII através da incorporação
do método científico
clássico de hipótese,
experimentação e comprovação.
No século XX com a introdução
da estatística e outras sofisticações,
a medicina teve um enorme avanço
tecnológico. Na formação
do conhecimento científico
da medicina atual temos um incrível
mosaico de diferentes áreas
do conhecimento. Temos a biologia,
a anatomia, a química orgânica,
a farmacologia, a genética,
a psicologia, e a fisiologia, que
surgiu como aquela ciência gerada
pela união de todas as outras.
A fisiologia trouxe novos conhecimentos
para o cenário da medicina:
Os conhecimentos de hidrodinâmica
foram utilizados para descrever as
funções do sistema cardiovascular,
os conhecimentos da dinâmica
dos gases auxiliou a entender a fisiologia
do pulmão, os conhecimentos
da física dos sólidos
em solução auxiliou
a criar a biofísica. Mas havia
também necessidade de entender
a doença, e esse conhecimento
derivou na patologia, ciência
materialista e descritiva que detalha
as lesões orgânicas.
Da patologia derivou a fisiopatologia,
cujo objetivo é explicar o
funcionamento errado do corpo, que
gera doença, e a etiologia,
que investiga a causa dessas doenças.
Mais recentemente houve uma grande
agregação de conhecimentos
na medicina de áreas ainda
mais variadas. Na área dos
exames de imagem, tem sido empregados
conceitos de engenharia, informática
e até da física quântica,
na área de próteses,
são empregados conhecimentos
de metalurgia, inovações
da tecnologia dos plásticos,
conhecimentos de eletricidade e eletrônica
são necessários para
a realização de exames
e tratamentos que vão do eletrocardiograma
ao mapeamento cerebral. Técnicas
de biotecnologia em genética,
endoscopia, cirurgia endoscópica
e laparoscópica, órgãos
artificiais ou transplantados, microcirurgia,
cirurgias empregando laser, e assim
por diante. Essa multiplicidade de
conhecimentos e agregação
de técnicas dá à
medicina um perfil único entre
as ciências, e é uma
das razões pela que eu proponho
que tenha uma abordagem diferenciada
As bases da ciência médica
A ciência médica moderna
identifica seu início na escola
hipocrática da ilha de Cós,
na Grécia Antiga.. A escola
hipocrática foi criada por
Hipócrates, famoso médico
grego e considerado o pai da medicina.
Hipócrates também foi
filósofo, tendo conhecido grandes
pensadores da antigüidade como
Demócrito, o criador do conceito
de átomo como constituinte
básico da matéria.
Hipócrates nasceu em 460 aC.
na ilha de Cós, na Grécia,
e faleceu em 370 aC. em Tessália.
Segundo Platão, Hipócrates
era descendente de Asclepias, famoso
médico e figura mítica
da antigüidade e citado na Ilíada,
do lado paterno, e de Herades, pelo
lado materno. Ele estudou medicina
num templo dedicado à Asclepias,
em Cós, formando um grupo chamado
de Asclepiadae (filhos de Asclepias).
Hipócrates viajou muito, tendo
clinicado e ensinado medicina em Atenas,
na Trácia, em Delos, e na Tessália.
A influência de Hipócrates
criou a escola hipocrática
em Cós, onde despontaram outros
nomes da medicina grega como Crisipos
e Praxágoras. Muitos autores
atribuem parte do trabalho de Hipócrates
a esses médicos assim como
outros de seus alunos. A obra de Hipócrates
está compilada numa série
de volumes conhecidos como a Coleção
Hipocrática (Corpus Hippocraticum),
que foi feita por Ptolomei, general
das tropas de Alexandre o grande,
e guardado na bibiloteca de Alexandria.
A Coleção Hipocrática
compreende também outros escritos
feitos posteriormente por autores
diversos, formando algo entre 70 e
100 volumes, dependendo da organização
feita nos trabalhos. No seu trabalho
Hipócrates faz descrições
acuradas de várias doenças
como epilepsia, febre amarela e gota,
além de discorrer sobre exame
físico, diagnóstico,
cirurgia e ginecologia e obstetrícia.
Outros conceitos originalmente introduzidos
por Hipócrates são os
de doença mental e psicologia.
O
trabalho de Hipócrates é
citado até hoje em inúmeros
textos médicos, como referência
de acuidade diagnóstica, ética
e raciocínio clínico.
Contudo uma análise mais detalhada
do trabalho de Hipócrates mostra
que suas idéias na questão
filosófica, estratégica
e conceitual da medicina são
desconsideradas ou mal interpretadas.
Hipócrates era um vitalista,
ou seja, acreditava que a matéria
viva possuía um diferencial,
a energia vital, que proporciona aos
seres vivos características
especiais. Daí sua famosa descrição
da face hipocrática (Fascies
Hippocraticus), correspondendo ao
momento que a energia vital está
se extinguindo no corpo, usada até
hoje pela medicina para caracterizar
o aspecto do doente que está
na eminência de falecer.
Hipócrates desenvolveu a teoria
dos humores, fluidos que, acumulados
no corpo poderiam ser causadores de
doença ou de sintomas, hoje
vista como uma interpretação
rudimentar da fisiologia corporal.
Contudo, na verdade, a teoria dos
humores é um sistema de relação,
que guarda semelhanças, por
exemplo com os sistemas de relação
da medicina ayurvédica e da
medicina chinesa. Esses sistemas de
relação são utilizados
para explicar a sintomatologia peculiar
e individual dos pacientes, assim
como as diferentes formas de reagir
aos estímulos do meio ambiente.
Hipócrates também desenvolveu
o método hipocrático,
uma proposta de raciocínio
médico lógico, livre
de influências religiosas, fundamental
para que um diagnóstico fosse
feito e um tratamento adequado pudesse
ser instituído. O método
hipocrático é incrivelmente
atual, e consiste nos seguintes pontos
principais:
Observar o todo: Segundo Hipócrates,
a observação acurada
e global do paciente é fundamental
para que nenhum detalhe seja perdido.
A observação incluía
aguçar todos os sentidos (audição,
visão, olfato, etc.) e observar
com calma e repetidamente, anotando
todas impressões, para ter
uma quadro descrito em sua globalidade.
A observação deveria
perceber mesmo aquilo que o paciente
omitisse ou não valorizasse.
Mesmo que o paciente sofresse de um
determinado órgão, todos
seus aspectos, tais como sono, estado
emocional, alimentação
e hábitos intestinais deviam
ser investigados. O segundo aspecto
desse ponto era entender todos os
achados num contexto de globalidade.
Isso permitiu a Hipócrates,
por exemplo, a fazer uma famosa cura
na Macedônia, de um rei diagnosticado
como portador de uma doença
consumptiva. Hipócrates, percebendo
que tratava-se de um problema emocional,
usou técnicas de persuação,
introduziu nos diálogos as
questões que atormentavam esse
rei, e conseguiu seu pleno restabelecimento.
Por isso Hipócrates se opunha
à classificação
das doenças segundo o órgão
afetado, pois considerava que sempre
o paciente adoecia como um todo e
não como uma parte. A compartimentalização
excessiva da medicina atual está
causando a perda progressiva da visão
global do paciente.
Estudar principalmente o paciente
e não a doença: Hipócrates
sustentava que cada caso é
um caso. A manifestação
da doença não dependia
apenas de sua natureza, mas também
da natureza do doente e de seus hábitos
de vida. Para ele isso explicava porque
uma mesma doença podia evoluir
de forma tão diferente em pacientes
distintos. Esse ponto relaciona-se
com a individualização
dos tratamentos. Trata-se de outra
base do método hipocrático
que não é valorizado
pela medicina convencional, excessivamente
voltada para o conceito de doença.
Avaliar com fidedignidade: Muitos
pacientes de Hipócrates faleceram.
Mesmo assim seus casos foram relatados
detalhadamente e o médico admitiu
que a terapêutica falhara. Segundo
Hipócrates, não a evolução
do conhecimento, como também
a instituição de novas
estratégias de tratamento só
podiam ocorrer se houvesse um relato
fidedigno da resposta do paciente
à terapêutica. A falta
de mecanismos de avaliação
da iatrogenia e da satisfação
dos pacientes mostra que a medicina
também tem sido pouco comprometida
com esse objetivo.
Promover o equilíbrio natural:
Segundo Hipócrates a natureza
tem uma tendência a buscar um
equilíbrio natural. Na doença,
os mecanismos patológicos bloqueariam
a força de equilíbrio
corporal. Portanto o papel da medicina
seria estimular esse processo de busca
do equilíbrio, assim como evitar
o fator causador da doença.
Essa concepção de doença
como ruptura do equilíbrio
orgânico vinculada ao tratamento
voltado ao reequilíbrio do
organismo é o mesmo conceito
que encontramos nas medicinas tradicionais
como a medicina chinesa e a medicina
ayurvédica . Esse conceito,
que é muito interessante, foi
perdido, como objetivo principal,
no modelo da medicina convencional.
A discussão acima permite concluir
que a medicina vem se afastando cada
vez mais dos conceitos básicos
do método proposto por Hipócrates.
Até os pontos fundamentais
do juramento de Hipócrates,
prestado por todos estudantes de medicina
quando se formam estão se perdendo.
Vemos, cada vez com mais freqüência,
colegas médicos que parecem
esquecer o juramento prestado e cometem
os piores desvios da ética,
comportam-se de forma mercantilista
ou tornam-se frios e desumanos.
Cornelius Celso foi o médico
mais expressivo da Roma antiga e influenciou
muito a medicina da Europa Medieval.
Celso nasceu em Verona, mas não
existe o registro exato da data do
seu nascimento, nem de sua morte.
Versado em várias ciências,
como agricultura, leis, filosofia
a retórica, Celso escreveu
o livro Da Medicina, primeiro tratado
médico a ser editado após
a invenção da imprensa
por Guttemberg. O trabalho de Celso
resultou da reunião da experiência
de diversos médicos e de todos
os escritos que conseguiu reunir nessa
época. Algumas partes dos escritos
de Celso são remarcáveis.
Ele possui uma descrição
detalhada de vários procedimentos
cirúrgicos como amputações,
hérnia escrotal, ccircuncisão
e restauração do prepúcio
, e sobre o tratamento de feridas
profundas. Neste trabalho consta a
primeira descrição de
uma ligadura de vaso sangüíneo
para estancar uma hemorragia.
Celso também fez contribuições
na área da clínica.
A primeira descrição
dos quatro sinais clássicos
da inflamação (rubor
et tumor cum calor et dolor) foi feita
em seu tratado e é atual até
hoje. Celso possuía um rigor
muito grande nas terapêuticas
que aprovava. No seu tratado recomenda
apenas repouso ou exercícios,
dieta, ventosas, massagens e cirurgia.
Ele foi um severo crítico do
uso da maioria das plantas medicinais
e de encantamentos, pois considerava
a feitiçaria um método
rudimentar e contrário à
religião.
O tratado Da Medicina foi redescoberto
pela igreja católica após
sua publicação em1478,
servindo como base para os conceitos
que dominaram o pensamento médico
até o século XVIII.
Influenciado pelo médico grego
Asclepíades, Celso rejeitava
o conceito hipocrático que
o corpo possui forças curativas
naturais e acreditava que a cura dependia
de uma intervenção do
médico, como no caso de uma
cirurgia. Esses conceitos exerceram
influência sobre a medicina
até hoje, sendo a semente da
tendência intervencionista que
predomina na medicina atual.
Contudo, o autor da antigüidade
que mais influenciou a medicina e
a farmacologia foi o Galeno. Galeno
era um homem vaidoso, autoritário,
dogmático e crítico
severo. Contudo, também possuía
várias qualidades. Era um observador
cuidadoso e detalhista, sua mente
era criativa e coalhada de idéias
originais, e possuía um raciocínio
rápido, sendo exímio
debatedor.
Galeno
nasceu na cidade grega de Pergamum
em 129 dC. Em sua educação
básica ele conheceu as ciências
naturais, a matemática a filosofia
e geografia. Quando tinha 14 anos
teve um sonho com Esculápio,
o Deus da medicina dizendo que seu
caminho era tornar-se médico.
Estudou medicina, à partir
dos 16 anos, com sábios de
sua cidade, onde foi introduzido ao
trabalho de Hipócrates e Dioscórides.
Após a morte de seu pai, Galeno
viajou por toda a Grécia, visitando
Creta, Chipre, Corinto e Alexandria,
entre outras cidades. Durante suas
viagens ele teve oportunidade de estudar
medicina com diversos médicos,
cirurgiões e anatomistas da
época, além de ampliar
seus conhecimentos sobre plantas medicinais.
De volta a Pergamom, alguns anos após,
foi eleito médico dos gladiadores,
o que contribuiu para aumentar sua
experiência em cirurgia e no
tratamento de lesões traumáticas.
Em 164 Galeno deixou Pergamus novamente,
dirigindo-se para Roma para divulgar
suas idéias na capital do Império.
Em Roma destacou-se como médico,
tendo cuidado de Severus, futuro imperador.
Galeno conseguiu influenciar muito
a medicina, tendo autoridades e pensadores
importantes na platéia de suas
conferências, e disferindo críticas
contundentes contra seus adversários
de outras escolas médicas (metodistas,
pneumatistas e empíricos).
Algum tempo após voltou para
Pérgamo, mas sua estadia aí
foi curta, pois foi convocado por
Marco Aurélio para atuar como
médico das tropas nas Guerras
Germânicas. Após essas
guerras ficou vivendo em Roma, tendo
presenciado o incêndio de 191,
quando diversas de suas obras queimaram.
A maioria dos historiadores afirma
que Galeno faleceu na Cecília
no ano 200 dC.
A obra de Galeno influenciou profundamente
a medicina por cerca de quinze séculos.
Ao contrário de Hipócrates,
que assumia friamente seus insucessos,
Galeno era dogmático e utilizava-se
de argumentos teológicos para
explicar a evolução
ruim de seus pacientes. Valendo-se
de um argumento de Aristóteles,
de que ‘a natureza não
faz nada sem propósito’,
e acrescentando ‘e eu conheço
esse propósito’, Galeno
assumia uma postura onisciente e autoritária.
Esses argumentos funcionaram como
luva para as pretensões da
igreja católica, que utilizou
os argumentos teológicos de
Galeno para fundamentar suas doutrinas,
durante a idade média e parte
do renascimento. As obras de Galeno,
como as de Celso, foram editadas logo
após a invenção
da imprensa, contribuindo para a disseminação
das suas idéias na Europa medieval.
Galeno contribuiu com importantes
conhecimentos para a fisiologia. Foi
ele que mostrou que o sangue circulava
nos vasos, e que as veias levavam
o sangue da periferia para o coração,
e que as artérias continham
sangue e não ar. Ele também
propôs a teoria que os nervos
se conectavam com a medula e essa
com o cérebro. Ele realizou
experiências com animais, demonstrando
que o coração continuava
batendo após a secção
do nervo vago, ou que os reflexos
se modificavam após a secção
da medula. Foi ele o primeiro médico
a discorrer sobre os cuidados para
a preparação de medicamentos,
incluindo a metodologia para a preparação
de pós e extratos. Por isso
ele é considerado o pai da
farmácia, e as preparações
simples são chamadas até
hoje de ‘formas galênicas’.
Ele juntava várias plantas
medicinais em fórmulas próprias
para tratar os humores afetados baseado
nas suas qualidades farmacológicas
tradicionais (frio e quente, seco
e úmido). Segundo Galeno uma
doença de calor exigia o tratamento
através de uma erva fria, um
conceito muito parecido com o que
é preconizado pela medicina
chinesa.
Sua obra incluiu tratados sobre anatomia,
fisiologia, farmacologia, patologia,
cirurgia, dietética, higiene
e redução de luxações
e fraturas. A parte da obra de Galeno
que exerceu influência e serviu
como base da medicina do século
XVIII foi aquela baseada em conceitos
descritivos e dogmáticos como
as descrições anatômicas
e as técnicas de preparo de
medicamentos. Os conceitos vitalistas
e holísticos como o sistema
de relação dos 4 humores
foram sendo progressivamente esquecidos
e hoje em dia são vistos como
uma crença curiosa e destituída
de interesse científico.
No fim do século XVIII e durante
o século XIX, a medicina pretendeu
resistir a influência da física
clássica. Newton via o universo
como um relógio, com leis simples
e que determinavam o seu funcionamento
numa cadência perfeita e dinâmica.
As idéias de Newton formam
transportadas para a medicina por
Descartes. Segundo o pensador francês,
o corpo é um relógio
também. Ele é composto
de partes, os órgãos
que executam funções
específicas e que podem ser
entendidas à luz da ciência.
A resistência da medicina a
essas idéias está bem
caracterizada no protesto vitalista
de Diderot, médico, também
de nacionalidade francesa. No artigo
que escreveu para a Enciclopédia,
nessa época, Diderot classificou
a química, a bilologia e a
medicina como ciências onde
havia necessidade de arte e sensibilidade
para a percepção dos
sinais característicos da cada
situação. Para tanto
era necessário um observação
obstinada e muita assiduidade, características
absolutamente distintas do imperialismo
abstrato dos newtonianos. Segundo
o vitalismo, não era possível
aplicar as teorias da física
à medicina pois a vida subtendia
um princípio vital, uma energia
derivada da divindade e que não
poderia ser compreendida pela ciência.
O vitalismo atingiu sua plenitude
através de Stahl, no incício
do século XIX. Ele nota que
as leis universais da química
que explicam a decomposição
das substâncias não se
aplicam aos seres vivos enquanto estão
em vida. Apesar de ser constituído
de substâncias frágeis
e instáveis quimicamente, o
ser humano resiste à decomposição
durante toda sua vida. Isso só
poderia ser explicado através
de uma força desconhecida que
seria o princípio vital. Stahl
foi o criador do primeiro sistema
químico coerente e que resultou
na química atual.
Durante o século XIX o vitalismo
foi sendo substituído pelo
reducionismo , apesar de ser o pensamento
dominante na classe médica.
Vários fatores começaram
a contribuir para isso. O primeiro
foi a invenção do microscópio.
Com isso foi possível descobrir
que os tecidos eram feitos de células.
Em seguida Pasteur descobriu as primeiras
bactérias e criou o conceito
que as doenças eram causadas
por agressão de microorganismos.
A influência de Pasteur sobre
a medicina foi tão grande,
que até hoje, cem anos após
sua morte, os pesquisadores ainda
tem o cacuete de buscar uma bactéria
ou um vírus para explicar doenças
cujas causas não estão
bem definidas. Com isso o modelo reducionista
e mecanisista começou a dominar
o pensamento da ciência médica,
influenciando profundamente seu desenvolvimento
no século XX.
O conflito de identidade da ciência
médica
Essa bipolaridade conceitual, vitalismo
versus reducionismo, gerou um conflito
que persiste, até hoje, mal
elaborado, seja na cabeça dos
médicos, seja no meio acadêmico,
onde se produz a ciência, seja
na forma como a sociedade vê
a medicina. Vitalismo versus reducionismo
gera conflitos como medicina ciência
humana versus medicina ciência
exata, ou medicina alternativa versus
medicina convencional, ou mesmo visão
espiritual do ser humano versus visão
científica.
Portanto no decorrer da história
recente da medicina diversos médicos
se fizeram a mesma pergunta (qual
a essência da medicina), obtendo
respostas diferentes. Com isso foram
sendo propostos caminhos que parecem
ser essencialmente diferentes, que
culminaram a riqueza de correntes
de pensamento existentes na medicina
atual. Vale à pena lembrar
alguns dessas idéias originais
e entender a sua interação
dinâmica até os dias
de hoje.
O
vitalismo, representado por Diderot
e Stahl, teve seu momento mais significativo
na medicina com a fundação
da homopatia pelo alemão Samuel
Hanneman. A idéias de Newton
e Descartes, que fundamentam a corrente
reducionista, tornaram-se dominantes
com a descoberta do microscópio
e dos microorganismos e perpetuam-se
até hoje como espinha dorsal
do pensamento científico médico.
Aparentemente
vitalismo e reducionismo são
opostos incompatíveis. Contudo
eles podem coexistir de forma construtiva
num mesmo modelo. O melhor exemplo
de coexistência entre essas
duas formas de encarar a natureza
é a alquimia. Através
dos procedimentos da alquimia muita
ciência no modelo convencional
foi produzida. Newton dedicou mais
tempo de sua via à alquimia
que à física. Alguns
autores, recentemente, aventaram a
possibilidade da descoberta das leis
da física do macrocosmo podem
terem sido resultado de um longo processo
de amadurecimento, feito através
da alquimia. A própria química
inorgânica nasceu da alquimia.
Paracelsius, um médico da antiguidade,
foi um pioneiro em aproximar a medicina
da alquimia. Ele declarou que o objetivo
principal da alquimia não era
a transmutação de elementos
em metais preciosos, mas sim a fabricação
de medicamentos e a compreensão
dos processos de transformação
da natureza e do organismo humano.
Ao juntar a alquimia com a medicina,
Paracelsius conseguiu um modelo que
misturava de forma harmônica
vitalismo e reducionismo. Isso fez
com que influenciasse tanto a farmacologia
clássica, como a homeopatia.
Paracelsius é o codinome do
médico alemão Theophrastus
Bombast Von Hohenhein, nascido em
1490 em Eisiedeln. Este codinome foi
criado pelo próprio, que era
extremamente vaidoso, e se dizia superior
a Celso. Paracelsius estudou medicina
na Universidade da Basiléia,
e iniciou sua prática médica
nas Minas de Tirol, onde começou
a relacionar as doenças apresentadas
pelos mineiros, à exposição
excessiva aos minerais. A descoberta
do papel patológico de alguns
minerais influenciou todo seu trabalho
futuro, aproximando-o da Alquimia.
Em 1526 ele retornou para Basiléia,
onde foi convidado a ensinar medicina
na universidade. Segundo historiadores,
Paracelsius queimou as obras de Galeno
e Avicena durante uma aula, para demonstrar
que ‘medicina se faz olhando
para o futuro, e não para o
passado’. Seu interesse e seus
experimentos com minerais continuaram
e ele desenvolveu um tratamento à
base de banhos com mercúrio,
enxofre, ferro, chumbo e arsênico.
Ele também desenvolveu tinturas
alcoólicas de várias
plantas e resgatou a visão
platônica que o homem está
inserido no universo, e para trata-lo
é preciso entende-lo sob esta
ótica. Dentro desta concepção
holística, ele propôs
a teoria das assignaturas, que ensina
que as características morfológicas
e ecológicas das plantas tem
relação com sua atividade
no corpo, concepção
que também pode ser encontrada
em várias medicinas tradicionais
do oriente. Segundo Paracelsius a
doença era causada por um desequilíbrio
nos elementos alquímicos do
corpo (ferro, sal, mercúrio
e enxofre).. Seu trabalho influenciou
muitos médicos famosos, como
o herbalista John Gerard e Samuel
Hanneman, criador da Homeopatia. Paracelcius
também contribuiu para a descrição
da farmacologia de várias plantas
e é um dos pais da farmacologia
moderna.
Com a organização do
pensamento científico por Newton
e Descartes, os conceitos da alquimia
foram cada vez mais se distanciando
da ciência clássica.
As idéias da alquimia não
eram bem vistas pela igreja católica,
que perseguiu os alquimistas através
da Santa Inquisição.
Tudo isso acabou sufocando a alquimia
de tal forma que ela praticamente
desapareceu. Enquanto isso a ciência
clássica conseguiu manter uma
relação de tolerabilidade
com a igreja, e manteve seu crescimento.
A criação do microscópio
e o seu emprego na medicina, onde
sobressai o trabalho de Marcello Malpighi
e de Antony van Leeuwenhock, sela
definitivamente a hegemonia do reducionismo
sobre o vitalismo na medicina. Leeuwenhock
foi o primeiro a descrever os glóbulos
vermelhos do sangue, as estrias do
músculo e os espermatozóides.
Malpighi além de grande observador,
desenvolveu as técnicas de
preparo dos tecidos para observação
em microscópio, sendo considerado
o pai da histologia moderna. Foi olhando
no microscópio que Pasteur
pode identificar as primeiras bactérias
e descrever seu papel em algumas doenças.
As correntes vitalistas na medicina
mantiveram-se vivas, mas cada vez
isoladas em pequenas comunidades ou
em grupos de médicos, alijadas
do meio universitário. Com
isso homeopatia e a medicina antroposofica
ficam limitadas aos consultórios
de seus seguidores e sofreram um processo
de perseguição. Os homeopatas
reagiram, radicalizando sua posição
e recusando-se a reconhecer os avanços
da medicina alopática. Esse
processo culmina com a proibição
e o banimento da homeopatia dos Estados
Unidos, no final do século
XIX. Criou-se então uma situação
de litígio. A ciência
negava-se, como nega-se até
hoje, a dar crédito a qualquer
conhecimento que não fosse
‘científico’, ou
seja desenvolvido conforme os métodos
propostos por ela mesma. As correntes
vitalistas insistiam em suas crenças,
que acreditavam não poderem
ser comprovadas pelo modelo chamado
de científico. Por isso elas
tornaram-se medicinas alternativas,
e continuaram subsistindo na marginalidade.
Mesmo assim a medicina ainda conservou
algumas qualidades do vitalismo, através
do holismo . Até a década
de 60 ainda existia a figura do clínico,
aquele que conduzia e gerenciava o
processo de tratamento, que conhecia
o histórico do paciente e resolvia
o seus problemas comuns de saúde,
enfim que mantinha uma visão
global da pessoa. Mas a massificação
do tecnicismo acabou com os resquícios
de holismo que haviam na medicina
convencional. Chegamos à um
ponto onde é fundamental resolver
a divisão de fragmenta a medicina.
É preciso resolver o conflito
de identidade entre vitalismo e o
reducionismo. O desafio para o futuro
é conceber um modelo de medicina
que permita ao médico lidar
com idéias vitalistas e reducionistas
sem que isso resulte em conflito.
Pelo contrário, o ideal é
aproveitar o que cada visão
dessas tem de positivo e construtivo,
para agregar à nova medicina
que cuidará do ser humano nesse
século que se inicia. Se o
modelo da alquimia foi eficiente em
permitir uma convivência construtiva
entre reducionismo e vitalismo, no
contexto da ciência renascentista,
com certeza há espaço
para a criação de um
modelo adequado à medicina
atual.
O equívoco nas bases conceituais
Equívocos conceituais são
idéias básicas sobre
a vida, a natureza de forma geral
e o ser humano que a ciência
médica possui mas que não
combinam com a essência da vida.
Assim quando planeja seus estudos,
a ciência leva em consideração
apenas essas idéias básicas,
e os seus resultados vem contaminados
por elas gerando produtos que se opõe
à essência da vida das
pessoas. Eu procurei identificar cada
equívovo desses, e explica-lo
da forma mais simples possível.
O interessante é notar que
a maioria desses equívocos
resulta do problema básico
que apontei acima, que é a
negação do vitalismo.
O mecanicismo e a linearidade
Como vimos, Newton, um dos pais da
ciência via o universo como
um relógio. O universo de Newton
funcionava de forma precisa, cada
elemento cumprindo seu papel à
um determinado tempo, como engrenagens
em cadeia que acionam uma resultante
final. Descartes propôs que
o corpo humano era uma máquina
que funcionava segundo os mesmos princípios
do universo de Newton. Este conceito
cria idéia que tudo, no corpo
humano, funciona guardando uma relação
linear de causa e efeito. É
o que chamo de visão mecanicista
da fisiologia do organismo humano
como representado no esquema abaixo:
Fator
desencadeador ? efeito/causa 1 ? efeito/causa
2 ? efeito/causa 3
Exemplificando vamos adotar como modelo
a regulação da glicose
no sangue. Na forma clássica
da medicina encarar o problemas temos
que a seqüência é
que a pessoa tem come, a glicose se
eleva, e a pâncreas secreta
insulina e a glicose baixa:
Ingestão
de comida ? aumento da glicose ? secreção
de insulina ? redução
da glicose
Contudo hoje já existe suficiente
informação para a medicina
deduzir que nada no corpo funciona
dessa forma. O que vemos, nos mecanismos
fisiológicos são múltiplos
fatores influenciando-se mutuamente
e gerando a resposta é uma
resultante do somatório de
influências ocorridas num determinado
momento. Esse tipo de interação,
muito mais complexa, poderia ser representada
por um esquema como o seguinte:

No
esquema acima, que se aproxima muito
mais da realidade fisiológica,
vários tipos de influencia
afetam o fator central que é
o estudado. Podem haver fatores de
influência que atuam indiretamente
(influências 1, 3, 6 e 8), e
interação paralela entre
outros fatores de influência
(como entre influências 2 e
3). Colocando o exemplo da glicose
no esquema acima nota-se como ele
modifica completamente a sua natureza
Como demonstrado no esquema anterior,
vários outros fatores influenciam
a taxa de glicose no sangue, além
da insulina, interagindo de forma
complexa entre si. A taxa final de
glicose vai depender, então,
de uma interação entre
esses diferentes fatores de influência.
A realidade é que quase todos
processos que ocorrem no corpo seguem
esse modelo de interação
complexa entre vários fatores
de influência, mesmo que também
haja um mecanismo principal, como
a insulina funciona para a glicose.
Com o desenvolvimento da informática,
o ideal seria desenvolvermos modelos
tridimensionais para facilitar a visualização
de como ocorrem os processos no corpo
humano para o médico, quebrando
a tendência ao raciocínio
mecanicista e linear que os médicos
tendem a desenvolver.
Atualmente, o cientista russo Ilya
Prigogine, prêmio Nobel de física,
é uma das vozes mais ativas
no questionamento de diversos conceitos
usados na biologia e na medicina.
Segundo Prigogine essas áreas
carecem de mudanças profundas
para que seu protocolos experimentais
se adaptem às realidades que
pretendem estudar, e que muitos dos
resultados tidos como científicos,
na atualidade, terão que ser
revistos. Ele juntou-se à brilhante
bióloga belga Isabelle Stengers
para escrever um importante livro
sobre filosofia da ciência onde
colocam vários conceitos que
considero, além de atuais e
muito pertinentes, fundamentais para
qualquer profissional da área
biomédica que deseje se prepara
para as mudanças na ciência
do futuro. O livro, chamado de ‘A
Nova Aliança’ propõe
uma nova relação entre
ciência, filosofia e o mundo
onde vivemos, além de levantar
vários questionamentos, que
aproveitarei para suportar minhas
idéias.
Neste livro, Prigogine e Stengers
comentam que, um modelo científico,
para ser eficiente, necessita de uma
linguagem adequada à realidade
que pretende estudar e uma boa concepção
do real, em termos do contexto onde
se insere o objeto de estudo. Ou seja,
ao estudar um fenômeno qualquer,
para que o experimento tenha sucesso,
há necessidade de partir-se
de uma hipótese que corresponda
à essência desse fenômeno,
e utilizar um método de avaliação
do experimento que possa avalia-lo
de forma efetiva. Caso contrário
os resultados levarão à
uma falsa avaliação
dos objeto do estudo. Portanto não
é mais possível continuarmos
com protocolos de estudo em medicina
baseados em raciocínios lineares.
Prigogine e Stengers também
discutem a questão da complexidade
na biologia. Em termos de variáveis,
num organismo vivo a complexidade
é elevada ao infinito. Os modelos
científicos, se não
podem incluir toda esta complexidade,
não podem ser formulados como
se ela não existisse. As variáveis
que não podem ser incluídas
como tal ,podem ter uma outra representação
nos modelos matemáticos desses
estudos. E isso exigirá a elaboração
de novos modelos de avaliação
para as experiências realizadas
nas áreas de biologia e medicina.
Uma
estratégia semelhante foi utilizada
por Boltzmann ao estudar a cinética
dos gases. Usando a metodologia da
física clássica Boltzmann
teria que calcular a velocidade e
a direção de todas as
moléculas do gás para
chegar as conclusões que pretendia.
A complexidade era imensa e muitos
físicos duvidaram de seu trabalho.
Mas ele observou, ao final de muitas
experiências, que independente
das condições iniciais
da experiência, havia uma tendência
ao gás de assumir alguns comportamentos
definidos ao final de um determinado
período. Com isso ele elaborou
a teoria das flutuações
e da mecânica estatística
dos gases que é usada até
hoje na física. Se Boltzmann
encontrou uma solução
para a cinética dos gases,
deverá haver outra solução
para os sistemas complexos da biologia.
A compartimentalização
excessiva da ciência médica.
Compartimentalização
é uma estratégia que
se baseia na subdivisão de
um sistema complexo, como os organismos
biológicos, em subsistemas
mais simples que podem ser estudados
em separado. Como conseqüência
a fisiologia do corpo humano tende
a ser estudada através da fisiologia
de sistemas estanques e isolados,
como se esses sistemas não
se comunicassem entre si. Essa estratégia
deriva da influência do filósofo
e matemático francês
René Descartes sobre a medicina.
Segundo Descartes a maneira correta
de analisar um problema complexo é
subdividi-lo em vários problemas
mais simples, que podem ser tratados
em separado. Essa estratégia
consiste então em dividir progressivamente
o corpo humano em sistemas cada vez
menores e mais simples, para entender
como eles funcionam, ou seja o reducionismo
que já foi citado. Portanto
são questões com a mesma
origem conceitual, resultante do conflito
entre vitalismo e reducionismo.
A estratégia da compartimentalização
e do reducionismo não é
propriamente ruim em sí. Pelo
contrário, ela é uma
importante fonte de informações
para a medicina e tem suportado o
desenvolvimento tecnológico
e científico que temos experimentado
nas últimas décadas.
A questão que se coloca é
que esse modelo é imposto como
único e dominante, onde não
há espaço para outros
tipos de modelo científico.
Esse problema já foi identificado
por alguns pesquisadores, sendo que
as críticas mais importantes
estão sendo feitas pelo Dr
António Damásio, professor
de neurologia da faculdade de medicina
da Universidade de Iowa. Damasio é
considerado, atualmente, a maior autoridade
mundial em teorias que explicam o
funcionamento do cérebro. Para
chegar à isso ele foi obrigado
a se desembaraçar das limitações
impostas pelo modelo compartimentado
e reducionista. Isso motivou Damásio
e escrever o livro ‘O Erro de
Descartes onde propõe modelos
para o funcionamento do cérebro
baseando-se no estudo de pacientes
com lesões neurológicas
de diferentes partes do cérebro.
No livro, Damásio traça
uma crítica obvia a Descartes
mostrando que o corpo humano e o funcionamento
do cérebro só podem
ser compreendidos em sua totalidade
se vistos como um todo e não
como estruturas separadas. Damásio
também introduz vários
conceitos que reforçam a importância
de rever a excessiva compartimentalização
na medicina. O primeiro é que
toda construção cerebral
induz um quadro fisiológico
corporal correspondente à essa
construção cerebral,
e que toda alteração
fisiológica do corpo gera uma
construção cerebral
correspondente à ela. Isso
significa que não importa onde
começa o problema, se ele é
mental ou físico, quase imediatamente
ele estará presente nas duas
esferas. O estudo de Damásio
acaba com o argumento que o problema
está ‘apenas na cabeça
do paciente’ que a medicina
costuma apresentar quando nenhuma
doença é diagnosticada
para explicar o que o paciente está
sentindo.
O segundo é que o cérebro
precisa reunir a função
de diferentes estruturas para formar
o que Damásio chama de contruções
cerebrais. Essas construções
compreendem imagens, sons, percepções,
emoções, etc. Quando
há uma bloqueio de algumas
estrutura que impede a formação
dessas construções,
o funcionamento do cérebro
fica afetado. Por isso, pacientes
com lesão no lobo frontal,
que ficam neurologicamente impedidos
de agregar sua percepção
emocional nas suas construções
cerebrais, não possuem uma
capacidade adequada de julgamento
das situações sociais.
Com isso Damásio propõe
que não é possível
entender a função do
cérebro à partir de
funções estanques, mas
sim de um todo. Da mesma maneira,
muitos aspectos da fisiologia corporal
só poderão ser melhor
compreendidos do momento em que o
corpo for estudado como um todo e
não como sistemas estanques.
A
compartimentalização
excessiva da ciência médica
gera três tipos principais de
problemas para a medicina. O primeiro
é o da estruturação
estratégica da medicina, de
forma maciça, em cima do modelo
de especialidades e superespecialidades.
O segundo é a criação
de uma ciência médica
com uma grande capacidade de análise,
mas com pouca capacidade de síntese,
dificultando o avanço em várias
áreas. A terceira é
a tendência a enxergar corpo
e mente como estruturas separadas
e com processos independentes.
O conceito de etiologia
Etiologia é uma palavra que
significa a causa das doenças.
O conceito de etiologia da medicina
baseia-se na procura de uma causa
principal para cada tipo de doença,
procurando essa causa em algum fator
que agride o organismo, em especial
um microorganismo. Esse conceito,
fortemente ligado à causa única,
externa, gerada por um organismo microscópico
também resulta da influência
excessiva do reducionismo na medicina
atual. Essa influência reducionista
começou com descoberta dos
micróbios e de seu potencial
gerador de doença por Pasteur,
e foi reforçado pelo impacto
da introdução dos antibióticos
no tratamento das infecções.
Até hoje as pesquisas em etiologia,
são voltadas, de forma maciça,
seja para o encontro de causas únicas
para as doenças, seja para
identificar microorganismos causadores
de doença.
Mesmo uma análise simplista
mostra que esse conceito de etiologia
é totalmente equivocado. Uma
simples caso de asma, por exemplo.
Na visão medicina a asma é
uma doença de etiologia não
esclarecida, mas que se relaciona
com uma reatividade exacerbada da
mucosa dos brônquios e com o
desencadeamento de processos alérgicos
nessa mucosa. Mas existem tantos fatores
que podem determinar um ataque de
asma! Uma mudança brusca de
temperatura, poluição,
fatores emocionais, medicamentos,
alimentos e exercício físico.
E o que causa asma em alguns pode
ser a cura para outros. Tem pessoas
que não suportam um clima úmido
como o do Rio de Janeiro, desenvolvendo
asma, e existem outros que passam
muito bem no Rio e vão apresentar
sintomas respiratórios em Brasília,
pois não suportam aquela secura
do ar. E existe ainda outra questão,
relativa ao desencadeamento de processos
alérgicos, onde mais perguntas
não respondidas superam as
respostas, até o momento. Se
considerarmos dois casos de asma em
situações diferentes
será possível avaliar
como o conceito de etiologia único
e fortemente relacionado à
um fator externo e agressor é
falho.
Imaginemos
em primeiro lugar uma criança
filho de pais com história
de alergia, e que mora no Rio de Janeiro.
Essa criança é de família
abastada. Por isso tem uma dieta excessivamente
rica em açucares e laticínios,
estando, por isso, acima do peso esperado
para sua idade e altura. Essa criança
tem asma desde 2 anos de idade e piora
sempre que existe mudança de
tempo. Esse é um ambiente onde
a exposição à
umidade e uma dieta inadequada contribuem
para agravar o problema. A situação
desse caso coloca uma criança
com predisposição à
uma doença alérgica
num meio onde há muita umidade
e fungos no ar, e ao mesmo tempo prepara
essa criança de forma inadequada
para lidar com as agressões
desse meio, através de uma
dieta inadequada e pouca atividade
física.
Já o segundo caso hipotético
é de uma criança moradora
da periferia de Recife. A família
é pobre e essa criança
é desnutrida. Como conseqüência,
já teve dois episódios
de pneumonia. Em seguida sua família
foi vítima de uma violência
policial, pois o irmão mais
velho da criança foi confundido
com um traficante. Logo após
esse episódio de violência,
a criança começou a
ter crises de asma e bronquite. O
ambiente é oposto ao anterior.
Essa criança não tem
antecedentes alérgicos, é
desnutrida e sua família tem
poucos recursos para protege-la das
agressões da sociedade. E o
resultado da combinação
de fatores é o mesmo, a asma
Notamos
claramente que, em termos de etiologia
(causa da doença), a primeira
criança é diferente
da segunda em tudo. Por isso, podemos
concluir que, apesar de se tratar
de asma, uma mesma doença,
não é possível
identificar uma causa única
ou etiologia conforme o modelo da
medicina clássica. Como o médico
não trabalha com a concepção
de etiologia única, ele vai
se limitar a prescrever dilatadores
dos brônquios, atividade física
e uma avaliação de alergia
com propósito de tentar uma
vacina. Com isso ele tenderá
a propor o mesmo tratamento para dois
casos essencialmente diferentes, o
que é um claro erro de estratégia.
Por
outro lado é muito mais fácil
entender a etiologia das asma à
partir da formação de
um ambiente propício à
doença para aquele doente específico.
Nos dois casos podemos identificar
influências nocivas, mesmo que
diferentes, mas que vão causar
o aparecimento da doença. É
o que chamo de conceito ecológico
de etiologia. Traduzindo, em vez da
doença ser causada por um fator
único, ela é decorrente
de um desequilíbrio entre o
organismo e o meio ambiente, gerado
pela concentração de
vários fatores desfavoráveis
àquele indivíduo específico.
Revendo
agora a etiologia da asma, nesses
dois casos, sob a ótica ecológica,
será muito mais fácil
entender porque a doença está
surgindo e o que precisa ser feito
para combate-la. Se cada ambiente
diferente gera um contexto de doença
específico, isso implica em
medidas terapêuticas diferentes
para cada um dos asmáticos.
A etiologia multifatorial, no modelo
de desequilíbrio entre as agressões
do meio e a capacidade de reação
do indivíduo não é
uma peculiaridade da asma e sim uma
e sim um fenômeno universal.
É interessante notar que um
conceito muito parecido é proposto
por muitas medicinas tradicionais
como a medicina chinesa e ayurvédica.
Se
considerarmos uma doença infecciosa
comum, uma gripe, por exemplo. Na
visão da medicina atual a gripe
é causada por um vírus.
Contudo sabe-se que existem outros
fatores que influenciam significativamente
a incidência de gripes. Por
exemplo a exposição
ao tempo frio. Todas as estatísticas
mostram que a incidência de
gripes e pneumonia praticamente dobra
no inverno. A explicação
que a medicina convencional dá
para isso é que as pessoas
ficam mais em ambientes fechados no
inverno. Mas esse argumento é
falho, já que, no Rio de Janeiro,
também há um aumento
da incidência de gripe no inverno,
e as pessoas não modificam
seus hábitos neste período.
Por outro lado, qualquer avó
sabe que deixar uma criança
mal agasalhada é expo-la ao
risco de pegar uma gripe ou uma pneumonia.
No caso da gripe existe ainda a questão
das defesas orgânicas. Se o
sistema imunológico está
com suas funções deprimidas
é certo que a infecção
viral resultará em doença.
Mas se a pessoa tem um sistema imunológico
eficiente, o vírus penetra
no corpo, mas é destruído
antes que cause doença. Se
a pessoa fuma ou está exposta
a poluentes do ar, sua chance de ficar
gripado após exposição
ao vírus também é
maior.
Analisando a questão da etiologia
da gripe foi possível identificar
ao menos cinco fatores, que participam
na sua instalação e
gravidade de doença. E que
tratamento dar aos outros fatores,
que influenciam a intensidade da doença
e participam da sua instalação?
Desconsiderar os outros fatores como
agentes que participam da etiologia
das doenças é uma forma
de prejudicar o enfoque estratégico
para uma abordagem terapêutica
mais eficiente. No caso da gripe,
alegam os teóricos da medicina,
a presença do vírus
é um fator determinante para
a doença. Sem o vírus,
argumentam esses médicos, não
haveria a gripe. Contudo, se utilizarmos
o conceito ecológico de etiologia,
onde a questão é a relação
entre o ambiente e a pessoa, veremos
que esse argumento é questionável.
É preciso considerar que sempre
existem vírus no ambiente,
que uma grande quantidade de vírus
podem causar um quadro gripal, que,
ao menos teoricamente, uma pessoa
pode entrar em contato com um vírus
causador de gripe várias vezes
num dia. Vendo sob esse aspecto os
outros fatores assumem uma importância
maior na gênese da doença.
Ainda
na análise dos fatores que
determinam as gripes, assim como de
outras doenças infecciosas,
existe ainda uma outra variável,
que é a virulência do
agente infeccioso. Às vezes,
através de um processo de mutação
surgem vírus que possuem uma
capacidade muito maior de agredir
o corpo humano e determinar doença.
Foi o que ocorreu nas epidemias da
gripe espanhola e da gripe asiática.
Nessas duas epidemias, houveram pessoas
que morreram da doença, outros
ficaram gravemente doentes mas se
recuperaram, um terceiro grupo teve
uma gripe forte, e um quarto grupo
apresentou apenas sintomas passageiros
ou mesmo nem ficaram doentes. O conceito
ecológico de etiologia permite
colocar todas essas variáveis
nas considerações da
causa da doença, inclusive
a virulência do agente e sua
relação com o indivíduo,
o que permite propostas terapêuticas
mais ajustadas à realidade
de cada paciente e de cada ambiente
ecológico onde a doença
se instala.
Um outro problema que resulta do conceito
equivocado de etiologia, é
uma tendência a acreditar que
as doenças são sempre
causadas por agentes externos ao corpo,
em geral vírus, bactérias,
vermes, protozoários e fungos.
Várias das pesquisas recentes
publicadas na melhores revistas de
medicina, buscaram encontrar agentes
infecciosos para explicar uma variedade
de doenças cuja causa ainda
não está estabelecida.
Vírus tem sido apontados como
possíveis causadores da esclerose
múltipla, infecção
crônica por clamídia
tem sido implicada como causadora
de aterosclerose e infarto do coração,
infecção crônica
por herpes Epstein Bahr e citomegalovírus
tem sido associadas a problemas como
fadiga crônica, para citar alguns
exemplos
Um exemplo dessa tendência é
a excessiva importância que
os médicos passaram a dar à
bactéria Helicobacter pilori,
que pode causar gastrite e úlcera
péptica. Depois que surgiram
os trabalhos científicos relacionando
a bactéria com agressão
à mucosa do estômago,
alguns médicos esqueceram todas
os outros conhecimentos que tinham
sobre esse assunto, e começaram
eleger o tratamento da bactéria
uma prioridade. E o esquema inicial
de tratamento era com três medicamentos
que causam efeitos colateral no sistema
digestivo: O bismuto, um antibiótico
chamado eritromocina e o metronidazol.
Muitos pacientes pioravam após
essa medicação. Entre
aqueles que se livravam do Helicobater
uma fração expressiva
estava colonizada pela bactéria
novamente seis meses após o
tratamento.
Basta um mínimo de bom senso
e um pouquinho da visão ecológica
da etiologia para concluir que, se
a bactéria está no estômago
é porque há um ambiente
propício à sua presença.
Esse ambiente propício pode
ser causado por muitos fatores, alguns
deles velhos conhecidos dos médicos.
O primeiro e mais óbvio é
a dieta. Uma pessoa que tem uma dieta
excessivamente rica em carnes vai
produzir mais compostos nitrogenados,
que formam um meio que favorece o
crescimento bacteriano. Já
uma pessoa com uma dieta rica em folhas,
vai ingerir mais taninos e óleos
essenciais, ambos inimigos mortais
das bactérias em geral. Efetivamente,
trabalhos recentes mostraram o que
o bom senso já nos tinha apontado,
que o H. pilori é sensível
e diversas plantas ricas em taninos
e óleos essenciais.
Outra questão sabida da medicina
chama-se barreira mucosa, que é
um tipo de muco que as células
do estômago secretam, que as
protege das agressões e do
ácido. Alguns alimentos, alguns
medicamentos e o estresse podem enfraquecer
a barreira mucosa, o que vai facilitar
a agressão pelo Helicobacter.
Outro fator conhecido é a acidez
do suco gástrico. Se o suco
gástrico fica excessivamente
ácido, ele acaba lesando a
mucosa e causando irritação,
microlesões e úlcera.
A mucosa lesada pode ser parasitada
com mais facilidade. Por fim existe
as predisposições individuais
e o sistema imunológico. Sempre
existem indivíduos, que por
predisposição genética
ou por fraqueza imunológica
se infectam e desenvolvem doenças
com mais facilidade que outros. Há
um tipo de anticorpo chamado de IgA
que é específico para
proteger pele e mucosas. Teoricamente,
qualquer pessoa com baixa de IgA pode
contrair uma infecção
em alguma mucosa ou na pele. Portanto
a falta de visão que o conceito
de etiologia única e centrada
em microorganismos, precisa mudar
para que as propostas de tratamento
fiquem mais adequadas à realidade
ecológica dos indivíduos
e do seu ambiente.
As falhas nos modelos científicos
Toda a teoria da medicina é
baseada nos trabalhos científicos
feitos por diversos pesquisadores
pelo mundo. Voltando ao nosso símbolo,
dinossauro de branco, é preciso
dizer que a ciência é
o seu alimento. Se existem problemas
nos modelos científicos o dinossauro
vai se alimentar de uma comida estragada,
o que vai afetar mais sua saúde.
Imagino que todos leitores já
devem estar apreensivos em relação
as condições desse dinossauro
para tomar conta da nossa saúde.
Os
trabalhos científicos são
feitos de acordo com metodologias
que são as aceitas pela ciência
médica. A ciência médica
possui distorções conceituais
derivadas de sua estruturação
excessivamente influenciada pelo reducionismo.
Se existem falhas nas metodologias
usadas nos trabalhos científicos
médicos, forma-se um conhecimento
distorcido, que vai reforçar
os equívocos conceituais. Assim
fecha-se um ciclo vicioso que tende
a manter as distorções
existentes. Portanto o questionamento
desses modelos é um dos pontos
básicos para a modificação
dos conceitos equivocados da medicina.
Explicando de forma simplista, a estratégia
de realização de estudos
científicos da medicina resume-se
nos modelos seguintes: Modelos experimentais
‘in vitro’ feitos com
órgãos isolados, células
ou tecidos, em geral de animais, modelos
‘in vivo’ realizados em
animais e modelos clínicos,
realizados com seres humanos.
Os modelos ‘in vitro’
visam estudar parâmetros específicos
seja da fisiologia, seja da farmacologia
básica de drogas. Usando esses
modelos, foi possível ter idéia
mais precisa de como funcionam alguns
órgãos, assim como agem
os medicamentos nos órgãos.
Por exemplo, os medicamentos bloqueadores
dos canais de cálcio podem
começar a ser estudados em
coração isolado de rã,
o que facilita identificar se são
eficientes e potentes. Os modelos
animais são usados como um
segundo estágio para o estudo
de drogas ou para o estudo de doenças.
Por exemplo, um medicamento para abaixar
a pressão arterial, é
testado, em primeiro lugar, ratos
ou em cachorros anestesiados. Quando
um medicamento qualquer é avaliado,
ele é testado em muitos animais,
inclusive macacos antes de ser utilizado
no homem.
Os estudos clínicos são
estudos feitos em humanos para entender
como o homem reage nas doenças
ou após o uso de um medicamento.
Esses estudos são comparativos.
Em geral um grupo de indivíduos
recebe o tratamento verdadeiro e é
comparado a um outro grupo que recebe
um placebo. Se a diferença
entre os dois grupos é estatisticamente
significativa, o medicamento é
considerado ativo. Recomenda-se também,
nesses estudos, que seja tentado neutralizar
o máximo possível variáveis
que possam interferir com os resultados,
como outros medicamentos concomitantes.
Quando isso é levado às
últimas conseqüências
as pessoas podem receber uma dieta
semelhante ou até ficarem todas
num ambiente controlado.
Os estudos científicos clássicos
são importantes e tem possibilitado
o acúmulo de uma série
de muitas informações
valiosas e que tem contribuído
para o avanço vertiginoso da
medicina que observamos nos últimos
40 anos. Contudo existem alguns pontos
que precisam ser questionados para
aprimorar a sua metodologia e produzir
resultados mais eficientes e fidedignos
Os principais erros de metodologia
dos estudos científicos feitos
pela medicina, segundo a minha avaliação,
são os seguintes:
Supervalorização de
modelos não humanos: Muitas
vezes quando comento com meus colegas
médicos que uma planta medicinal
qualquer vem sendo usada há
centenas de anos pela população
no tratamento de reumatismo, não
impressiono esses colegas. Mas se
afirmo que a mesma planta possui efeito
antiinflamatório em modelos
experimentais como o edema da pata
de rato, então meus colegas
começam a encara-la de outra
maneira. Existe uma vasta experiência
com muitas plantas medicinais em todo
mundo, que está subutilizada
por falta de uma metodologia para
tal. Nesse contexto a indústria
farmacêutica prefere investir
em moléculas novas, que vão
ser testadas inicialmente em animais,
em vez de aproveitar toda essa experiência
acumulada sobre as plantas.
Para
moléculas novas, estudar a
farmacologia em humanos é inviável,
e os pesquisadores são obrigados
a utilizar animais de laboratório
ou órgãos extraídos
desses animais para fazerem seus estudos.
O problema é a tendência
de acreditar que os resultados conseguidos
nos modelos experimentais clássicos
são os mesmos que serão
encontrados nos seres humanos. Em
termos de fisiologia os animais são
apenas semelhantes aos humanos. Mesmo
os macacos possuem algumas diferenças
importantes na sua fisiologia, em
relação a nós.
É claro que todos pesquisadores
sabem disso, mas há uma tendência
à simplificação.
Por exemplo, quando o hormônio
leptina foi estudado em ratos recentemente,
pesquisadores afirmaram que haviam
encontrado uma solução
para a obesidade. Mas quando a leptina
foi estudada em seres humanos os resultados
foram bastante diferentes. Isso porque
os mecanismos que regulam o nosso
metabolismo são muito mais
complexos que os dos roedores. Essa
limitação é muito
importante porque, quando um medicamento
chega a ser usado na clínica,
os cientistas só se interessam
por seus resultados numa determinada
doença. Produz-se pouca informação
científica da sua ação
no ser humano normal e de suas interações
com outras condições
patológicas. Na medida que
temos necessidade de entender melhor
a ação dos medicamentos
e sofisticar sua indicação
para evitar efeitos colaterais, haverá
necessidade de se produzir mais informações
em humanos e aproveitar as informações
do uso tradicional de plantas, que
já existem e estão à
espera de uma melhor aproveitamento..
Utilização de modelos
incompatíveis com a vida: Esse
problema é ressaltado por Prigogine
e Stengers no livro ‘A Nova
Aliança’, pois os autores
consideram que isso vai resultar em
dados equivocados, caso o objetivo
da ciência seja compreender
a vida, no caso da biologia, ou melhorar
a qualidade de vida, no caso da medicina.
Ou seja, quanto mais artificial o
modelo do estudo, maior chance do
resultado não refletir a realidade
dos fatos e sua aplicabilidade na
ciência seja pouco eficiente.
Essa crítica pode ser feita
tanto para os estudos em animais de
laboratório, quanto aos estudos
clínicos.
Em estudos clínicos é
fundamental que seu desenho vise respeitar
da melhor forma a vida normal das
pessoas, e que se evite um controle
excessivo de variáveis. Quando
isso não acontece, os resultados
vão ser distorcidos. Isso vai
se traduzir na clínica, na
piora da qualidade de vida dos pacientes.
Por isso é comum ocorrerem
problemas com o uso dos medicamentos,
que não estão relatados
na literatura, mas que causam muito
desconforto aos pacientes. Muitas
vezes isso faz esses problemas serem
pouco valorizados pelos médicos.
A falta de metodologia eficiente para
lidar com variáveis múltiplas:
A medicina tem como estratégia
estudar uma variável única,
ou apenas um número pequeno
de variáveis, em função
visão linear e mecanicista
do corpo humano. Por isso os modelos
científicos são construídos
para lidar com variável única,
ou com poucas variáveis. Isso
dificulta entender como as diferentes
variáveis se relacionam entre
si, que é o real modelo da
fisiologia do organismo ou das situações
geradoras de deonça. Portanto
os estudos que costumam ser feitos
dão uma idéia limitada
do que ocorre na clínica, ou
seja no dia a dia da realidade dos
pacientes. Na clínica o médico
sempre se depara com situações
multifatoriais e não tem informação
de qual é o melhor caminho
a seguir. E ainda por cima podem existir
situações onde a associação
de variáveis múltiplas
possa representar um risco à
saúde não detectado
até o momento, e que pode estar
gerando malefícios à
saúde da população
sem que a medicina saiba.
O problema para lidar com variáveis
múltiplas é que o estudo
precisa de uma amostragem muito grande
e a análise dos dados é
muito mais complexa. Isso custa muito
mais dinheiro e não tem a objetividade
que interessa à indústria
farmacêutica, que é o
principal agente financiador dos estudos
feitos com medicamentos. Por isso
não existe muito interesse
em desenvolver mais esse tipo de metodologia,
e por isso não surgem novas
idéias ou descobertas nesse
campo. Como conseqüência
a medicina continua com a mentalidade
mecanicista de ação
e reação linear, em
vez de haver a introdução
de novos conceitos e metodologias
mais eficientes em avaliar as situações
reais de doença e novas possibilidades
de estratégia de tratamento.
Uma maneira de acumular informação
sobre variáveis múltiplas
seria através de um sistema
integrado de informações
médicas conectado a programas
de análise de dados que cruzasse
as informações imputadas
no sistema. Essa proposta significa
desenvolver um sistema inteligente
de coleta e processamento de dados,
que permitisse aprender ativamente
com a experiência médica
de todos profissionais, ligados em
rede, de forma coordenada, possibilitando
um cruzamento de dados eficiente universal
e rápido, e com isso mais eficiente
em identificar como as variáveis
múltiplas influenciam os tratamentos,
e quais são as configurações
de variáveis que são
favoráveis ou desfavoráveis.
Um sistema seguindo esse modelo seria
um passo imenso na qualidade do trato
à informação
e significaria uma nova arrancada
em termos de avanço científico
e tecnológico.
Se o leitor acha que esse tipo de
proposta é absurda, basta se
informar qual é a metodologia
que está sendo usada para melhorar
a eficiência das previsões
do tempo. Para entender como funciona
um ‘sistema dinâmico com
cinco milhões de variáveis’,
é preciso acompanhar os trabalhos
de Edward Lorenz, um dos cientistas
que auxiliou a desenvolver a teoria
do caos. No livro ‘A Essência
do Caos’ ele explica que para
chegar à uma avaliação
da situação climática
global suficiente para permitir uma
previsão eficiente do tempo,
em 1991 foi iniciada a implantação
de um sistema que pretende colher,
diariamente, informações
básicas como temperatura, velocidade
e direção do vento e
umidade relativa do ar em 45 mil pontos
da superfície terrestre e em
31 altitudes diferentes.
Lorenz comenta que um sistema de 5
milhões de equações
pode parecer sem propósito
ou extravagante, mas que ainda não
é suficiente para uma avaliação
realmente acurada do clima. No seu
ponto de vista, será necessário
desenvolver sistemas ainda mais complexos
e sofisticados e com mais variáveis
para se atingir uma previsão
superior a sete dias. Esse tema está
comentado de forma mais profunda no
capítulo ‘A Medicina
e o Caos’.
O tratamento metodológico igual
a indivíduos diferentes: Há
ainda um sério equívoco
de estratégia na metodologia
dos estudos clínicos que formam
a base da ciência médica
hoje em dia. É a falta de um
método que permita distinguir,
ao menos em parte, como as diferenças
individuais poderão influenciar
na resposta aos tratamentos ou na
evolução das doenças.
Nos estudos clínicos feitos,
com a metodologia atual da medicina,
todas as pessoas são tratadas
como iguais e recebem exatamente o
mesmo tipo de tratamento. Se esse
tratamento obtém resultados
num número significativo de
pessoas em análises estatísticas,
então esse tratamento é
considerado bom e utilizado para todo
mundo.
Na escolha das pessoas que vão
compor o estudo utiliza-se a randomização.
Essa estratégia visa obter
uma amostra de pacientes para o estudo
que seja muito semelhante à
população. Com isso
acreditam os pesquisadores, evita-se
a seleção de pessoas
mais propensas a responder bem ao
tratamento que está sendo avaliado
para o trabalho, o que iria afetar
as estatísticas. Hoje em dia
pesquisadores consideram um trabalho
no qual a amostragem não é
randomizada, como de qualidade inferior,
e cujos resultados não são
muito fidedignos.
A questão é que a randomização
impede que se avalie a resposta de
diferentes subgrupos de pessoas à
um determinado tratamento. Sempre
que um estudo é feito com um
medicamento ou outro tratamento qualquer,
há uma gama grande de respostas
diferentes. Umas pessoas melhoram
muito, outras pouco e alguns não
melhoram quase nada. Se o medicamento
não é muito agressivo,
uma minoria, digamos quinze por cento,
vai apresentar efeitos colaterais.
Todos esses dados são descobertos
e anotados e divulgados. Mas nenhuma
metodologia é experimentada
ou mesmo especulada para que seja
possível identificar uma diferença
entre os grupos que respondem bem
e os que respondem mal aos tratamentos
que estão sendo estudados.
Eu não sou o único a
levantar estas críticas. Outros
autores já haviam percebido
a necessidade de se procurar subgrupos
entre uma amostra de pacientes, e
com isso entender as variações
de resposta observados nos grupos
dos estudos. A crítica mais
expressiva foi feita em 1983, Alvan
R. Feinstein, um epidemiologista da
Universidade de Yale, nos EUA, que
publicou uma série de 4 artigos
na revista Annals of Internal Medicine,
com diversas considerações
sobre desenho de estudos clínicos.
Nesses artigos Feinstein mostra que
a tendência de randomização
da amostragem nesses estudos traz
uma série de restrições
à avaliação científica
de vários tipos de problema.
Entre eles Feinstein cita o estudo
de múltiplas formas de terapêutica,
a influência de detalhes do
tratamento nos resultados, a influência
de instabilidade, a avaliação
de mudanças rápidas
causadas por melhora tecnológica,
efeitos adversos de longo prazo e
estudos sobre a relação
da etiologia com fatores agravantes
das doenças.
No seu artigo Feinstein cita, como
exemplo, um trabalho sobre o tratamento
do câncer de pulmão.
Na sua análise ele mostra que,
dependendo do grau de evolução
do câncer, o tratamento de escolha
muda, podendo ser radioterapia, quimioterapia,
cirurgia ou uma combinação
deles. Portanto quando os pacientes
de câncer são avaliados
de forma randômica, os resultados
não refletem a real resposta
aos tratamentos disponíveis.
Traduzindo, só é possível
avaliar o resultado do tratamento
de câncer de pulmão caso
os pacientes sejam divididos em subgrupos,
o que implica em abolir a randomização.
Como comentei acima, quanto mais multifatorial
se torna uma situação
clínica, menos eficiente é
a metodologia de pesquisa adotada
pela medicina. Ou seja, Feinstein
já dizia, de forma indireta,
que é preciso desenhar estudos
que possam ter uma visão mais
eficiente das diferenças entre
os pacientes.
Infelizmente
as idéias de Fenstein não
foram bem recebidas e seus artigos
foram esquecidos. Persiste até
hoje, firmemente estabelecido na cabeça
dos médicos, que as metodologias
utilizadas hoje em dia são
as mais sofisticadas possíveis
e que não há necessidade
de muda-las ou de melhora-las. No
meu trabalho para esse livro tive
oportunidade de entrevistar cerca
de 30 médicos de diversas especialidade,
para saber o que pensavam dos diversos
temas que estou me propondo a discutir.
Quando propunha que deveriam ser introduzidos
métodos de avaliação
para identificar grupos de pacientes
que respondem de forma diferente aos
tratamentos, todos colegas ficavam
admirados, e exigiam meia hora de
explicação para compreender
esse conceito. O modelo linear mecanicista
está tão sedimentado
na sua forma de pensar que muitos
nem conseguem vislumbrar um modelo
experimental que permita distinguir
os pacientes que vão responder
bem daqueles que vão responder
mal aos medicamentos. Em minha conversa
com a Dra Regina Fonseca, cardiologista
e coordenadora da residência
médica em cardiologia no Hospital
Universitário Clementino Fraga
da UFRJ, por exemplo, após
explicar as idéias que estão
acima, exclamou:
_‘Ah,
estou entendo agora... Nunca tinha
pensado nisto, mas, pensando bem,
concordo que tem uma lógica.
Para decidir na prática só
funciona mesmo o bom senso. Porque
na faculdade nós aprendemos
mais o que está escrito no
livro. E o livro nunca reflete a realidade.
Você vai desenvolver o seu senso
clínico mesmo é quando
começa a praticar. E demora
muito até você ter segurança
suficiente para mudar uma conduta
que está escrita no livro.
Realmente nunca tinha pensado no que
você falou agora.’
Existem três áreas estratégicas
que, a meu ver, merecem ser especuladas
e investigadas para se propor métodos
de individualizar a resposta dos pacientes
aos tratamentos. Uma área pode
se relacionar com o perfil genético
das pessoas, pois nesses casos os
problemas parecem ser determinados
pela sensibilidade herdada a certas
moléculas que a medicina chama
de reações idiossincráticas
. A segunda área estratégica
relaciona-se com o biotipo. A terceira
área seria aquela das alergias,
ou mecanismo de hipersenssibilidade,
como é tratado em linguagem
médica.
As reações idiossincráticas
podem estar relacionadas com o padrão
genético e são as mais
graves como mielotoxicidade , hepatite,
ou toxicidade para outros órgãos.
Essas reações são
bem mais raras, e são determinadas
por uma sensibilidade particular e
muito exagerada à uma substância
ou grupo de substâncias, que
causam lesão a determinadas
células ou tecidos do corpo.
Essas reações poderiam
ser especuladas se estão associadas
à algum padrão genético
específico. O ideal para esses
estudos seria fazer um estudo completo
do DNA das pessoas, para identificar
o perfil de genes que poderia estar
relacionado com cada tipo de reação
adversa. Contudo isso ainda é
inviável, porque mapear o genoma
individual de todos indivíduos
no mundo seria excessivamente caro.
Não sendo possível usar
o modelo do DNA, resta ainda a possibilidade
de apelar para traços do fenótipo
das pessoas que permita uma distinção
individual e precisa. Existem evidências
científicas que acidentes anatômicos
relacionam-se com genes que podem
ter também outras implicações.
Por exemplo, um estudo feito no início
da década de 80 mostrou que
pessoas que possuem uma prega no lóbulo
da orelha possuem um risco significativamente
maior de desenvolverem doenças
cardíacas.
Na
área das reações
de hipersenssibilidade a questão
é muito mais complexa, mas
pode já haver uma luz no fim
do túnel. Sabemos que as células
possuem um sistema de identificação
formada por antígenos de superfície
. Esses antígenos permitem
que o sistema imunológico reconheça
o que células são suas
(self) e quais não são
suas (not self), e é conhecido
como sistema de antígenos de
histocompatibilidade ou HLA. É
esse sistema que é utilizado
para se procurar por doadores compatíveis
de transplante. Sabemos que pessoas
com certos tipos de HLA possuem tendência
a desenvolver alguns tipos de reações
imunológicas alteradas que
causam doenças. É possível
que a alergia a alguns antígenos
específicos, como medicamentos,
também guarde relação
com o sistema HLA. Contudo essa possibilidade
nunca foi avaliada.
Para avaliação do biotipo,
eu acho que a melhor estratégia
é aproveitar os sistemas das
medicina tradicionais, como a medicina
chinesa e a medicina ayurvédica.
Esses sistemas tradicionais de medicina
permitem subdividir as pessoas em
subgrupos que, segundo sua visão,
possuem características fisiológicas
semelhantes e ao mesmo tempo, tendência
a desenvolver os mesmos problemas
menores à curto prazo, e as
mesmas doenças crônicas
à longo prazo.
Por exemplo, a Dra. Qi Li, neurologista
e minha orientadora durante um estágio
feito em 1988 no Hospital Guan An
Mem, em Pequim, demonstrou que os
modelos de medicina chinesa podem
ser utilizados para fazer prognósticos
em medicina ocidental. Num trabalho
onde avaliava as relações
entre o diagnóstico ocidental
e oriental a Dra. Qi Li encontrou
uma concordância de 81,3% entre
pacientes com acidente vascular isquêmico
e sinais e sintomas classificados
como ‘estagnação’
pela medicina chinesa e 92% de concordância
entre pacientes com acidente vascular
hemorrágico e o diagnóstico
de ‘calor’ da medicina
chinesa. O mais interessante desse
trabalho foi a constatação
que muitos sinais e sintomas que permitiram
a classificação em ‘estagnação’
ou em ‘calor’ já
existiam muito antes da instalação
da doença neurológica.
Isso significa que se a pessoa tem
sintomas de ‘estagnação’
tem muito mais chances de ter um acidente
isquêmico, enquanto que, se
os sintomas são de ‘calor’,
há grande chance de ocorrer
um acidente hemorrágico. Infelizmente
esse trabalho foi publicado em chinês
numa revista que só circula
na China.
Outro autor que identifica a necessidade
de uma abordagem metodológica
para a questão da heterogenicidade
de uma amostragem é o psicólogo
espanhol Fernando Silva. Silva publicou
um livro, ‘Psychometric Foundations
and Behavioral Assestment’ que
é considerado a primeira obra
a tratar conceitualmente do problema
da heterogenicidade dos indivíduos
humanos e sua relação
com os processos de avaliação.
Apesar de ser voltado para o desenvolvimento
dos procedimentos de avaliação
psicológica, o trabalho de
Silva fornece alguns conceitos interessantes
que podem ser aproveitados para os
modelos experimentais de medicina.
Uma das conclusões que Silva
chega, na sua discussão sobre
a análise de dados, é
que os dados probabilísticos
do grupo não fornecem, necessariamente,
nada de conclusivo sobre qualquer
indivíduo em particular. Ele
segue comentando que, apesar dos dados
estatísticos de uma população
serem importantes para o processo
de análise, a compreensão
exige também um estudo separado
de casos individuais. Segundo Silva
aplicação de metodologia
excessivamente padronizada de avaliação
pode acabar afetando os resultados
da avaliação, pois não
tem capacidade de filtrar e compreender
variáveis que estão
influenciando indivíduos ou
subgrupos dentro do grupo avaliado.
A falta de metodologia para avaliar
tratamentos individualizados: Existem
uma série de tratamentos que
são latamente individualizados.
São tratamentos que mudam de
uma pessoa para outra, baseados em
parâmetros individuais. O interessante
é que alguns desses tratamentos
podem ser a resposta para resolver
questões individuais dos pacientes,
que estão sem solução
no modelo atual da medicina. Mas não
existe metodologia científica
para avaliar esses tratamentos. Um
tipo de tratamento que tem esse perfil
é a cirurgia, pois cada pessoa
possui uma anatomia diferente, e uma
cirurgia nunca é igual à
uma outra. A ciência médica
se comporta nesses casos como se não
houvessem diferenças, aplicando
os modelos clássicos de avaliação
estatística. Mas há
um grupo de propostas de tratamento
individualizado, que não possuem
metodologia de estudo definida por
falta de desenvolvimento de um protocolo
de estudo universalmente aceito. É
o caso da acupuntura, da homeopatia
e da psicanálise, por exemplo.
Por falta de protocolos de estudo
definidos para estes casos, há
um ambiente de descrédito na
medicina por essas abordagens terapêuticas.
Novos caminhos conceituais
A evolução da física
exigiu a quebra conceitual de muitos
dogmas originários da física
clássica, e de concepções
decorrentes da limitação
que os nossos sentidos impõem
à observação
do mundo. Contudo essas mudanças
conceituais, infelizmente, chegaram
de forma tímida no mundo da
ciência médica. Basta
uma análise superficial da
evolução e dos conceitos
da medicina para evidenciar que ela
está contaminada por uma visão
mecanicista da fisiologia, como está
discutido em “O equívoco
nas bases conceituais”. Isso
gera uma absoluta pobreza de novas
idéias que revolucionem o conhecimento
médico e fisiológico.
As últimas grandes descobertas
que influenciaram a compreensão
da fisiologia dos seres vivos e do
homem em particular, datam todas do
início do século XX
ou do fim do século XIX. Todas
as inovações existentes
decorrem de uma grande desenvolvimento
dessas idéias, da aplicação
maciça de tecnologia, e da
introdução de técnicas
específicas nas diversas especialidades.
A genética, descrita por Mendel
no século passado, possibilitou
o estudo das doenças hereditárias
o que culminou com o ambicioso projeto
do genoma humano. A neuroanatomia,
motivo de paixões de alguns
anatomistas do início do cérebro
está avançando muito
com as técnicas de mapeamento
cerebral. A teoria da estruturação
da mente proposta por Freud, outra
idéia inovadora proposta no
século XIX, nunca se entendeu
com a neurologia, e seu desenvolvimento
parece ocorrer em paralelo ao da medicina.
Enzimas foram descritas e suas fórmulas
estruturais e espaciais determinadas,
desenvolvendo a química orgânica
de Quecoulet. A fisiologia dos órgãos,
descritos por anatomistas no passado,
também já sofreu avanços
significativos. Mas sistemas onde
existem interações complexas
e multifatoriais, como o sistema imunológico
e os sistemas de regulação
da homeostase, ainda falta muito para
compreender.
Avanços significativos exigirão
idéias novas. Contudo, várias
dessas idéias podem já
existir, especialmente em áreas
do conhecimento que sofreram grandes
mudanças conceituais com a
física. A física estuda
o comportamento do Universo, a sua
constituição, e sua
organização micro e
macroscópica. De alguma forma
esses conceitos devem se aplicar também
aos seres vivos. Conceitos novos (antigos
na física) como o da mecânica
estatística de Boltzmann (veja
abaixo), o princípio da incerteza
e o princípio da complementaridade,
ambos introduzidos pela física
quântica, as noções
de entropia e irreversibilidade, e
as novas descobertas sobre a teoria
do caos podem ser aplicados na melhor
compreensão dos fenômenos
biológicos.
Ludwig Boltzmann foi um físico
austríaco que dedicou seu trabalho
ao estudo da cinética dos gases,
no final do século XIX. Ele
demonstrou que para que o comportamento
de bilhões de moléculas
movendo-se de forma caótica
em várias direções
e se chocando umas contra as outras,
pudesse ser avaliado o modelo clássico
de Newton, calculando a posição
e a velocidade de cada molécula
era inviável e desnecessário.
Boltzmann propôs que se abandonasse
que se abandonasse a descrição
determinística do sistema,
usando posições e velocidades
individuais, para se aplicar o uso
de médias, por aplicação
da estatística na física.
Os cálculos de Boltzmann explicavam
alguns achados encontrados em experiências
com gases feitas em laboratório
por físicos da época.
Contudo as idéias de Boltzmann
foram duramente criticadas por quase
todos os físicos da época.
Isolado e deprimido, com a saúde
abalada, Boltzman suicidou-se em 1906.
Dois anos após suas teorias
foram confimadas pelo trabalho do
físico francês Jean Perrin.
A teoria de Boltzmann pode ser adaptada
para os organismos biológicos
visando a formulação
de mecanismos de avaliação
de complexas interações
metabólicas.
O princípio da incerteza, introduzido
pela física quântica,
decorreu da impossibilidade de se
determinar a velocidade e a posição
de uma partícula subatômica,
mais especificamente, um elétron,
num momento específico. Sempre
que a velocidade era medida não
era possível precisar sua posição.
Por outro lado, toda vez que a posição
era determinada, não era possível
mensurar a velocidade. Essa não
comunicação entre posição
e movimento não só quebra
todos os conceitos da física
clássica, como traz novidades
conceituais interessantes. Como substituição
dos dados que não podem ser
calculados é utilizada a constante
de Plank (h), que funciona como ponte
entre posição e velocidade.
Isso simplifica os cálculos
e dá uma racionalidade própria
ao mundo quântico, tornando
velocidade e posição
necessariamente dependentes entre
si. A outra novidade é a introdução
do conceito de operador. Operador
é uma função
que substitui a noção
de tragetória, já que
não é possível
saber posição e velocidade/tragetória
ao mesmo tempo. A função
de operador é definida por
um cálculo estatístico,
determinando a probabilidade de uma
partícula ser encontrada numa
posição qualquer do
espaço. O conceito de operador
é que possibilitou a formulação
da teoria dos orbitais atômicos.
O princípio da incerteza torna
o sistema sensível a qualquer
mudança no quantum energético.
Isso significa que o sistema sofre
mudanças instantâneas
a cada momento que recebe uma influência
através de qualquer outro fato
adicional é introduzido no
nele. Pesquisadores notaram que isso
efetivamente ocorre durante as experiências
de medição de massa
ou velocidade de partículas
atômicas. A simples presença
do de um aparelho de observação
do fenômeno já modifica
as variáveis do sistema. É
como se o sistema quântico fosse
‘sensível’ e ‘inteligente’
e respondesse de forma ‘diferente’
a cada estímulo.
O princípio da incerteza pode
ser usado para explicar as diferenças
entre matéria inerte e matéria
viva. A matéria viva tem uma
atividade química imensamente
maior que a matéria inanimada.
Toda essa atividade depende da transferência
de elétrons entre substâncias,
de elétrons ativados trocando
de orbitais, de íons hidrogênio
em solução, entre outros
fenômenos, podem ser encarados
como uma ‘atividade’ quântica.
Isso pode explicar, por exemplo, a
fato de que os seres vivos possuem
reações que ainda transcendem
as explicações fisiológicas
clássicas.
O aproveitamento de conceitos revolucionários
da física já foi feito
por outras áreas do conhecimento
com sucesso. O exemplo mais expressivo
é o trabalho realizado pela
física e filósofa da
ciência Danah Zohar. Formada
por uma das universidades mais conceituadas
do mundo, o Massachussets Institute
of Tecnology, autora de diversos livros
e consultora de empresas como a Shell,
a Volvo e a cadeia de lojas britânica
Marks & Spencer, Danah tem utilizado
os conceitos da física quântica
e da teoria do caos para melhorar
o desempenho de empresas com resultados
surpreendentes. Em seu principal livro,
O Ser Quântico, ela lança
mão de conceitos como o princípio
da incerteza e a teoria do caos, e
combate o reducionismo e excessiva
avaliação analítica
da realidade. Portanto o aproveitamento
desses conceitos, também em
sistemas biológicos, baseia-se
numa tendência geral no mundo
científico atual.
O livro Medicina Vibracional, escrito
pelo médico norte americano
Richard Gerber, propõe-se a
discutir a introdução
dos novos conceitos da física
na medicina. Apesar de se aventurar
em conclusões precipitadas
e exageradas, esse livro reúne
o resultado de várias pesquisas
muito interessantes, e introduz alguns
conceitos que merecem atenção.
A questão mais interessante
introduzida pelo autor são
os efeitos biológicos de campos
eletromagnéticos de fraca intensidade.
Um experimento conduzido na Universidade
de Montreal por Bernard Grad revelou
que sementes de cevada expostas à
água tratada com campos eletromagnéticos
fracos, apresentaram maior um índice
de germinação, índice
de crescimento, e as plantas germinadas
tiveram maior capacidade de síntese
de clorofila, que sementes expostas
à água comum, todos
índices estatisticamente significativos,
Num outro experimento o Dr. Grad estudou
a influência exposição
a campos eletromagnéticos fracos
e às mãos de um curandeiro
em camundongos com bócio induzido
por dieta pobre em iodo associada
ao medicamento propiltiouracil . Os
camundongos foram sacrificados e as
tireóides pesadas. Tanto o
grupo exposto aos campos eletromagnético
quanto o grupo que recebeu o tratamento
por interposição das
mãos de um curandeiro apresentaram
tireóides com tamanho e peso
significativamente menores que os
controles. Grad demonstrou igualmente
que o curandeiro era capaz de induzir
com suas mão um campo eletromagnético
fraco. Um outra linha de investigação
sobre esses efeitos foi conduzido
pela Dra. Justa Smith, que detectou
um aumento da atividade enzimática
da tripsina ‘in vitro’
após a exposição
à campos eletromagnéticos
fracos específicos. Num segundo
momento Smith inativou a tripsina
e notou um ressurgimento de atividade
enzimática significativa após
a exposição aos campos
eletromagnéticos. Gerber atribui
esses achados à interferência
desses campos eletromagnéticos
com elétrons, tornando-os mais
excitados, o que pode interferir na
cinética química ou
mesmo estimular o rearranjo espacial
de uma enzima inativada.
Gerber relaciona várias formas
de tratamento ainda sem reconhecimento
científico definitivo, como
a ação farmacológica
dos medicamentos homeopáticos
e o poder de cura das mãos
atribuídos a alguns curandeiros,
que podem ser explicadas pela ação
de campos magnéticos sobre
os sistemas biológicos. Os
achados acima citados e as conclusões
de Gerber reforçam a possibilidade
de haver, efetivamente algum tipo
de comunicação entre
as propriedades quânticas e
a fisiologia dos organismos vivos.
Esses conceitos podem parecer estranhos
e até absurdos, mas eles merecem
ser investigados seriamente. Quando
os fundamentos da física quântica
foram propostos por Niels Bohr, a
maior parte dos físicos tratou-os
com descrédito por considera-los
incompatíveis com as leis da
física e até mesmo contrários
ao senso comum de realidade. Mas,
com a crescente evidência experimental
comprovando a teoria, esses físicos
foram obrigados a reconhecer a teoria
quântica e estuda-la. Por isso
antes de rejeitar essas novas idéias,
sem embasamento experimental para
faze-lo, simplesmente por parecerem
demasiado exóticas, a comunidade
médica acadêmica deveria
preocupar-se promover mais estudos
que pudessem definir melhor a sua
veracidade científica.
O princípio da complementaridade
foi uma das questões que mais
ocupou Bohr. Ao se referir à
esse princípio Bohr disse que
não era possível pensar
em mecânica quântica sem
sentir vertigens. Uma explicação
simples para o sistema quântico
é a seguinte: quando ‘indagado’,
dependendo da pergunta, ‘responde’
de forma contraditória. Se
você ‘pergunta’
ao elétron, ‘você
é uma partícula’,
ele diz ‘sim’. Em seguida
você ‘pergunta’:
‘você é uma onda’,
e ele responde ‘sim’ também!
Onda ou partícula? Energia
ou matéria? Bohr postulou que
no ambiente quântico o sistema
responde de acordo com a solicitação,
porque o sentido de realidade quântica
é diferente da realidade no
mundo macroscópico. Segundo
Bohr, as subpartículas atômicas
possuem tanto propriedades de matéria,
quanto de ondas eletromagnéticas.
Essas qualidades, apesar de opostas,
são complementares e assim
contribuem, ambas, para o equilíbrio
do mundo quântico.. Segundo
Prigogine e Stengers, o princípio
da complementaridade demonstra a riqueza
do real, que assim como na dualidade
do mundo quântico, manifesta-se
a cada linguagem, à cada estrutura
lógica, à cada iluminação
conceitual!
O princípio da complementaridade
permite propor duas considerações
sobre a questão da ciência
médica. A primeira é
que não existe uma realidade
definitiva em medicina. Quando somos
procurados por um paciente, significa
uma demanda por uma ação.
Às vezes esta demanda é
por uma ação objetiva.
Mas muitas vezes a demanda é
por uma ação subjetiva.
Em geral o paciente quer as duas coisas.
Ele se comporta como um elétron.
Você pergunta você quer
uma solução objetiva
e ele responde sim, mas no minuto
seguinte solicita uma solução
subjetiva. Portanto qualquer forma
de medicina tem que saber lidar com
os dois tipos de situação
para ser mais eficaz. A segunda questão
que pode ser aproveitada é
na leitura das formas de reação
do organismo humano às diferentes
agressões, e na evolução
das patologias. Para essa discussão
o ideal é recorrer à
algumas formas tradicionais de medicina,
que lidam com o conceito dos opostos.
Outra teoria que pode contribuir muito
para avanços na ciência
médica é a teoria do
caos. Essa teoria surgiu recentemente,
à partir de estudos da cinética
de algumas reações químicas.
Como já comentei, observava-se
que essas reações seguiam
por caminhos diferentes à partir
de determinado momento. Esses momentos
foram chamados de ‘bifurcações’,
ou momentos onde o sistema segue por
esse ou aquele caminho. Em outras
reações químicas
biológicas, a cinética
apresentava mais complexa ainda. Essas
reações foram chamadas
de ‘oscilações
químicas turbulentas’.
Notou-se que esse comportamento turbulento,
na realidade respeitava algumas regras.
Foram introduzidos os conceitos de
atrator estranho e modo, permitindo
algum entendimento de como se comportam
os sistemas caóticos. Em sistemas
biológicos como a medicina,
infelizmente, ainda são restritas
a aplicações da teoria
do caos, conforme a avaliação
do que publica maioria dos autores
nas principais revistas científicas
médicas atualmente. É
muito incomum encontrar autores que
recorrem à teoria do caos para
explicar fenômenos patológicos
ou fisiológicos. Até
o momento, pelo levantamento que fiz,
só encontrei referência
do uso da teoria do caos para explicar
o comportamento de arritmias cardíacas.
Por fim cabe citar algumas idéias
apresentadas no livro ‘Espaço,
Tempo e Medicina’, do médico
americano Larry Dossey. Quando o livro
de Dossey chegou em minhas mãos,
fruto de minhas pesquisas na internet,
minha obra já estava bastante
avançada, por isso foi inviável
introduzir e mesclar suas idéias
no texto da maioria do seus capítulos.
Por outro lado, foi muito gratificante
ver que existem outras pessoas fazendo
questionamentos semelhantes aos meus,
procurando se basear em evidências
científicas e buscando novos
modelos na física e na matemática
para explicar suas teorias. Dossey
cita as críticas feitas por
Ilya Prigogine aos modelos científicos
aplicados às ciências
biológicas, incluindo a medicina,
mostra que não é possível
separar os aspectos humanos da ciência
médica, como discutido no capítulo
‘A Perda da Humanidade’,
e discute a questão dos seres
vivos como estruturas dissipativas,
que guarda relação com
as considerações que
faço sobre a entropia e a irreversibilidade
no capítulo ‘O Caos e
a Medicina’. A principal idéia
que Dossey lança em seu livro
é que para um ser humano, é
possível que a relação
espaço-tempo se altere, sendo
causa ou até conseqüência
de doença. Nessa concepção,
assim como pode ocorrer em fortes
campos gravitacionais ou em grandes
velocidades, a relação
do espaço-tempo pode ser alterada
nos organismos vivos sob estímulo
patológico. Para caracterizar
isso Dossey introduz o conceito de
‘doença do tempo’
que significa um falta de ajuste entre
o tempo biológico e o tempo
real. Segundo Dossey essa falta de
ajuste causa problemas como hipertensão
arterial e insônia.
No meu entender o que a medicina precisa
é de um choque para quebrar
seu o modelo carteziano e reducionista,
como o choque causado pela teoria
da relatividade geral, de Einstein,
sobre a física, no início
do século. Nessa época
o Universo era visto como um relógio
onde os movimentos eram geometricamente
simples e pré-determinados.
A teoria da relatividade foi um choque
de complexidade. Ela descreve um Universo
muito mais complexo, e aproxima os
corpos celestes, propondo que eles
exercem influência entre si.
Da mesma forma, a medicina precisa
se render às inúmeras
evidências que a fisiologia
e os processos patológicos
ou de doença, do corpo humano
é muito mais complexa do que
parece, e que, interferir com essa
biologia de forma mis segura e com
qualidade de resultados exige desenvolver
teorias, e em seguida metodologias
para aperfeiçoar o diagnóstico
e a aplicação de tratamentos
médicos.
Fazendo ciência de um modo diferente
Uma pessoa com formação
excessivamente cartesiana e conservadora,
cético em relação
a novas idéias na medicina,
chegará ao fim desse capítulo
dizendo que todas minhas colocações
não passam de mera suposição,
e que não disponho de qualquer
evidência que haja alguma alternativa
melhor à do modelo científico
clássico. Não pretendo
tornar esse livro uma coleção
de evidências, tornando sua
leitura maçante e penosa. A
vastidão do assunto me obriga
a ter uma abordagem o mais sintética
e objetiva com cada assunto tratado.
Contudo não resisto a relatar,
abaixo, uma metodologia de investigação
na medicina, implementada por um médico
tradicional do Vietnam, que logrou
resolver um desafio que toda tecnologia
da medicina e milhões de dólares
em investimentos falharam em conseguir.
Pah Kuan Dan é um médico
tradicional de uma pequena aldeia
do interior do Vietnam. Ele origina-se
de uma família de médicos
cujo conhecimento é passado
de geração para geração
há vários séculos,
mas não possui formação
de médico ocidental. Na década
de 80 Pah Kuan Dan perdeu o irmão
devido ao vício em opiáceos.
A dependência de derivados do
ópio no Vietnam é um
sério problema de saúde
pública, devido à proximidade
das zonas produtoras, tornando o acesso
a essas drogas fácil e o preço
barato. Por isso vários outros
parentes de Pah Kuan Dan, entre elas
seu pai e seu irmão, foram
vítimas da dependência
de opiáceos e acabaram sucumbindo
à destruição
gerada pelo vício. Após
a morte do irmão, Pah Kuan
Dan ficou revoltado e resolveu encontrar
uma cura para essa terrível
doença. Para isso usou a seguinte
metodologia. Viciou-se em opiáceos
e começou a usar seu conhecimento
tradicional para juntar ervas medicinais
fazendo um composto que conseguisse
resolver o problema. Passou dois anos
trabalhando em sua fórmula,
de acordo com os sintomas que tinha,
até que um dia conseguiu um
composto de 13 plantas que aboliam
completamente os sintomas de abstinência
e tiravam o desejo de retornar ao
vício. Livre dos derivados
do ópio, Pah Kuan Dan começou
a tratar viciados de sua aldeia, obtendo
excelentes resultados. As histórias
de suas curas foram se espalhando
pelo Vietnam, o que motivou um encontro
com as autoridades de saúde
locais, para discutir o emprego da
fórmula pelo Ministério
da Saúde visando uma redução
do problema da dependência de
derivados do ópio. Foi então
feita uma série inicial onde
o composto foi dado a 130 mutilados
de guerra que recebiam suas doses
de opiáceo gratuitamente do
Ministério da Saúde
todo mês. No mês seguinte
70% dos 130 mutilados não voltaram
para pegar suas doses mensais, sem
qualquer tratamento adicional. Trata-se,
de longe, do melhor e mais expressivo
resultado obtido por qualquer tratamento
em dependência de opióides
em todo mundo! Para ser possível
ao leigo ter uma avaliação
da eficiência do composto de
ervas, nos centros mais avançados
para o de tratamento de dependentes,
onde o tempo de internação
é de sete meses, e são
empregadas várias técnicas
de tratamento associadas, incluindo
psicoterapia, desenvolvimento de capacidade
artística ou profissional,
drogas modernas como metadona e antidepressivos,
hipnose, e até acupuntura,
o índice de sucesso é
inferior a 40%. Com esses resultados
a Organização Mundial
da Saúde montou um projeto
de pesquisa clínica no Vietnam,
para avaliar a aplicação
clínica do composto de ervas.
Nesse estudo o composto foi chamado
de Heatos, e sua composição
química, assim como uma padronização
está sendo estudada com intuito
de patentear o produto. Os resultados
do estudo até o momento mostram
a necessidade de apenas 6 dias de
internação e um tratamento
total que dura dois meses. Usando
apenas o Heatos nesse período,
80% dos dependentes de opiáceos
apresentam-se livres de recaídas
1 ano após o término
do tratamento.
Nessa história, um médico
tradicional, munido apenas da coragem,
do arsenal terapêutico representado
por cerca de 600 plantas da medicina
tradicional, e de um modelo baseado
na medicina oriental, consegue desenvolver
um tratamento eficiente para uma das
doenças mais difíceis
de tratar pela medicina. Milhões
de dólares, tecnologia de ponta
e o trabalho de muitos pesquisadores
já foram empregados, durante
anos, sem que resultados satisfatórios
fossem conseguidos pelo método
convencional da ciência. E vemos
um único indivíduo desafiar
e derrotar toda a incrível
estrutura da indústria farmacêutica
usando o método tradicional.
Vocês acham que isso é
sorte? Pela lei das probabilidades,
é mais provável uma
pessoa morrer fulminada por um meteorito,
do que um composto desse tipo, para
uma questão problemática
como dependência de drogas,
ser descoberto por acaso. A probabilidade
é da ordem de uma para 10500
possibilidades, ou seja uma probabilidade
quase igual a zero. Então isso
significa que o método tradicional
é eficiente para nortear novas
descobertas, lida de forma mais eficiente
com a questão multifatorial
que o método científico
clássico, e pode significar
uma economia de milhões de
dólares de recursos aplicados
nessa área. Notemos outro aspecto
de grande interesse, o fato do método
tradicional se orientar pelos sintomas
subjetivos gerados pelas doenças.
Isso pode auxiliar, a entender melhor
a origem desses sintomas, correlaciona-los
com alterações a fisiologia
corporal e a encontrar soluções
para sintomas que os médicos
costumam tratar apenas com calmantes.
Equívocos conceituais, conservadorismo
e iatrogenia
No meu ver médicos são
mais vítimas que carrascos
nas atuais circunstâncias. Eles
são formados com idéias
limitadas e ultrapassadas, nas escolas
de medicina. Sabem que exercem uma
atividade de alta responsabilidade,
por isso são muito conservadores,
e só costumam se convencer
de novos conceitos após muitos
estudos científicos. E hoje
em dia trabalham pressionados pelas
grandes empresas e interesses econômicos
que dominaram a medicina. Mas médicos
também tem responsabilidade
sobre a atual situação:
as vezes são muito arrogantes
e não gostam de admitir que
erraram, usam os dogmas médicos
para se defender sem qualquer autocrítica,
e estão se tornando cada vez
mais técnicos e menos sensíveis.
É muito mais cômodo agarrar
a medicina como ela é a aplicar
seus conhecimentos,do que ficar questionando
e se colocando em posição
delicada com seus colegas.
O
fato é que a percepção
geral é que a iatrogenia não
para de aumentar, mesmo que não
haja um instrumento de medir a iatrogenia
como um todo. Isso faz as pessoas
ficarem desconfiadas de tratamentos
e dos médicos de forma geral
e questionarem as condutas propostas.
Todo dia conheço mais e mais
pessoas que me contam experiências
ruins com a medicina, causando todo
tipo de problema, desde uma cicatriz
feia até a perda de um ente
querido. É essa massa de histórias
tristes e pacientes insatisfeitos
que está dando a percepção
geral que há um problema na
medicina, e assusta as pessoas, mesmo
que não haja uma estatística
para comprovar o problema.
A causa do aumento na iatrogenia**,
ao meu ver, vem dos equívocos
conceituais da ciência médica,
associados a incapacidade do médico
de questionar um pouco os valores
estanques que lhe são oferecidos,
adaptando os tratamentos a realidade
dos pacientes. Médicos ficaram
tecnicistas demais, conversam pouco
com seus pacientes, não se
interessam por sua subjetividade.
É claro que estou generalizando
e nem todos os médicos se comportam
dessa maneira. Ainda é possível
encontrar grandes profissionais, que
são humanos, tem bom senso
para adequar as condutas a realidade
dos seus pacientes com enorme capacidade
técnica. Mas infelizmente hoje
em dia os profissionais com esse perfil
são a exceção
e na a regra.
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**Iatrogenia
é a doença que é
causada pelo médico e o tratamento
que ele instituiu, popularmente chamada
de “erro médico”.
*Dr.
Alex Botsaris é
médico e escreveu um relato
sincero sobre seu ofício no
livro: Sem Anestesia.
Partindo de uma experiência
própria - Botsaris perdeu o
filho de apenas 10 dias de vida, vítima
de um erro médico - o autor
analisa diversos aspectos da medicina
praticada nos dias de hoje, do aumento
dos erros médicos em todo o
mundo à relação
médico-paciente, cada vez mais
fria e distante.