Famílias vivem
drama do erro médico
Maria Gizele da Silva
PONTA
GROSSA – Quem deveria
promover a saúde acaba levando
a agonia das seqüelas do erro
médico a pacientes e seus familiares
ou a dor da ausência de vítimas
que não resistem à falha
humana. Os erros médicos, que
também levam o drama da culpa
à maioria dos seus autores,
se torna crescente no Paraná
devido, segundo análise do
próprio Conselho Regional de
Medicina (CRM) ao aumento no número
de médicos e à maior
conscientização da população
sobre seus direitos.
Em 2005, de 500 sindicâncias
abertas no CRM do Paraná foram
gerados 159 processos ético-profissionais.
Ainda no período foram realizadas
352 audiências e 42 julgamentos,
envolvendo 76 médicos. Destes
médicos, 43 foram absolvidos
e 33 condenados. Entre os condenados,
somente três perderam o direto
de se manterem na profissão.
A maioria dos condenados – 16
– sofreu a penalidade de censura
pública em publicação
oficial. Em 2004, o número
de sindicâncias caiu para 340,
com 92 processos instaurados. Já
no ano de 2003 foram 432 denúncias
recebidas pelo órgão,
e em 2002, 435 denúncias. O
CRM não dispõe de informações
por cidade.
Na maioria dos casos, a denúncia
é levada ao CRM pelo próprio
paciente ou algum familiar. Um grande
número chega por meio da Comissão
de Ética Médica do hospital
ou do diretor clínico, em outros
casos, podem vir também por
meio de delegados de polícia,
juízes ou promotores. Em todas
as denúncias, existe uma análise
prévia. A denúncia não
pode ser anônima e se for feita
pelo paciente ou familiar deve ser
assinada. Se vier de órgãos
institucionais deve ser oficial e
protocolada. A orientação
do CRM é que o médico
denunciado nunca deixe de se pronunciar.
Na avaliação da direção
do CRM do Paraná, ele é
o órgão que mais pune.
“Nós estamos num fio
da navalha mesmo: defender a sociedade
quando ficar provado que o médico
não agiu de acordo com o Código
de Ética e defender o médico
quando a denúncia não
ficar provada”, cita a diretoria
do órgão através
da assessoria de comunicação.
Sistema
- Na precariedade do sistema de saúde,
que obriga os médicos a terem
vários empregos, o risco de
erros é crescente. Outro detalhe
que chama a atenção
são os transtornos causados
não somente no sistema público
como no particular. Quando o paciente
se vê entre essas duas linhas,
o sofrimento é previsível
para ele próprio e os familiares.
Um caso recente é o de um jovem
de 21 anos, internado em quarto particular
depois de ter sofrido um acidente
automobilístico.
O quadro de saúde se alterou
e, desde a quinta-feira da semana
retrasada, ele está internado
num leito de UTI. O custo chegaria
a R$ 2,5 mil se o atendimento se mantivesse
no sistema privado. Conforme informações
da família, com a intervenção
do promotor público Fuad Faraj,
o hospital aceitou fazer a transferência
do particular para o Sistema Único
de Saúde (SUS), mantendo o
atendimento do paciente. Caso contrário,
o pagamento teria que ser feito ou
o paciente deveria ser transferido
para outro hospital.
Mazelas
da Saúde
Caso
Felipe
O garoto Felipe Messias Bittencourt,
aos 17 anos, se submete a cirurgia
neurológica em Curitiba e perde
os movimentos dos braços e
pernas. Hoje, nove anos depois, a
família aguarda posicionamento
da Justiça para o tratamento
de reabilitação do jovem
Morte
de Criança
O menino Murilo Specalsiki, de três
anos, morreu depois de uma simples
cirurgia de adenóide em Ponta
Grossa. A decisão da Justiça
foi favorável à família,
em primeira instância, mas o
CRM ainda não se posicionou
em sete anos de avaliação
do caso
Pagamento
A família de um jovem de 21
anos quase teve que dispôr de
um dinheiro de até R$ 2,5 mil
por dia para manter o paciente em
UTI após complicações
geradas em decorrência de um
acidente automobilístico. O
atendimento no SUS foi conquistado
depois da intervenção
do Ministério Público
Ineficiência
Um menino de sete anos, com uma picada
no olho, percorreu quatro médicos
com a família até conseguir
ser atendido. O surpreendente é
que o paciente era conveniado a uma
operadora de saúde de Ponta
Grossa. O médico do convênio
recusou atendimento
Bebê
ferido
Um bebê de 4,5 quilos nasce
de parto normal em Ponta Grossa. No
momento do nascimento, ele quebra
a clavícula e as seqüelas
são inevitáveis. Há
dois anos, o tratamento é feito
em Curitiba, mas o movimento normal
do braço nunca voltará
Desgaste
O menino Lorhan, de sete anos, viaja
semanalmente a Curitiba para receber
tratamento para seu caso de leucemia.
Em Ponta Grossa, não existe
oncologista pediátrico. Além
da agonia na busca de um doador compatível
de medula, a família se desgasta
nas viagens constantes
Denúncias
no CRM
2005 490
2004 320
2003 432
2002 435
Punições
Dos
33 médicos condenados em 2005:
16
receberam censura pública em
publicação oficial
7 receberam censura confidencial,
em aviso reservado
6 receberam advertência confidencial,
em aviso reservado
3 foram cassados
1 foi suspenso por 30 dias
Médico
de convênio recusou atendimento
Um
garoto de sete anos sofreu uma picada
no olho e envolveu a família
num drama. Somente depois de passar
por quatro médicos, ele obteve
sucesso no atendimento. A primeira
e principal recusa foi do médico
do convênio, que não
prestou o atendimento por acreditar
que não se tratava de emergência.
A consulta, em princípio, só
poderia ser feita dentro de dois meses.
A reclamação não
foi oficializada na operadora de saúde
devido ao processo ser burocrático,
segundo informações
da família. O que indignou
os familiares do garoto foi a incerteza
da gravidade da picada, que poderia
ser até de uma aranha-marrom,
enquanto não se obtinha o diagnóstico
médico.
Em todo o Brasil existem 2,08 mil
operadoras de saúde, sendo
que 613 estão no Paraná.
Com a falta de resolutividade no sistema
público de saúde, é
crescente o número de pessoas
que procuram convênios médicos
e odontológicos.
O assessor da diretoria de fiscalização
da Agência Nacional de Saúde
Suplementar, Túlio Faraco,
explica que as principais reclamações
são referentes à negativa
de cobertura e reajuste. A legislação
brasileira define que todas as operadoras
devem oferecer atendimento hospitalar
com ou sem obstetrícia, o atendimento
odontológico e o plano referência,
que é um misto dos demais atendimentos.
A ANS é responsável
pela fiscalização dos
convênios. Cabe ao usuário
procurar a ANS diante do mau atendimento.
Os contatos podem ser feitos pelo
telefone 0800-701-9656, que funciona
de segunda à sexta-feira, das
8 às 18 horas, pela Internet,
no site www.ans.gov.br e pelo endereço
Rua Augusto Severo, 84, Glória,
Rio de Janeiro-RJ, CEP 20021-040.
Outra possibilidade é procurar
o Coordenadoria de Orientação
e Proteção ao Consumidor
(Procon). Em Ponta Grossa, segundo
o coordenador do Procon, Bachir Fayad,
o número de queixas contra
operadoras de saúde é
muito baixo. Ele acrescenta que quando
ocorrem as reclamações,
o posicionamento do Procon se dá
mais no sentido de orientação
entre as partes do que multas.
Uma
tese de mestrado na Pontifícia
Universidade Católica do Paraná
(PUC-PR) se transformou no livro 'Erro
Médico – Inversão
do Ônus da Prova', editado em
2005 pela editora Juruá, com
autoria da advogada Consuelo Taques
Ferreira Salamacha. A aceitação
foi tão grande na classe jurídica
que a advogada está preparando
um novo capítulo para a reedição
do livro, desta vez, abordando os
procedimentos na área odontológica.
Para produzir o trabalho, Consuelo
se submeteu a um curso de auxiliar
de enfermagem no Serviço Nacional
de Aprendizagem Comercial (Senac)
de Ponta Grossa. Ela passou pelo curso
para vivenciar os percalços
e possibilidades de sucesso que envolvem
a classe médica no cotidiano
da profissão. Consuelo relata
que esta vivência é comum
na profissão. Houve um juiz
recentemente, segundo ela, que assistiu
a uma cesariana para analisar um caso
envolvendo a questão médica.
“Para mim foi uma grande experiência”,
acrescentou.
No livro, Consuelo aborda o erro médico
de maneira generalizada em várias
especialidades. Em todas as situações,
de acordo com ela, a transmissão
de informações aos pacientes
é primordial. “Nos casos
de urgência e emergência,
isso é mais complicado, mas
em cirurgias eletivas, o paciente
deve receber todas as informações
do médico para que evitem-se
problemas futuros”, explica.
Um caso citado no livro é o
de uma paciente de laqueadura que
engravidou e processou o médico
por erro, no entanto, a possibilidade
já era prevista pelas características
do tipo de cirurgia feita. A falha
ocorreu no fato do médico não
ter explicado isso à sua paciente.
No livro, conforme Consuelo, faz-se
uma orientação aos advogados,
para que procurem ouvir a área
médica antes de iniciar o processo
caracterizando a situação
como erro médico. “A
melhor solução é
através do consenso, e nesses
casos, devem-se ouvir os dois lados
para tomar uma decisão consciente”,
relata.
Adolescente
fica em estado vegetativo após
neurocirurgia
Um
dos casos mais conhecidos de possível
erro médico em Ponta Grossa
é o do jovem Felipe Messias
Bittencourt, morador de Uvaranas.
A confirmação de erro
ainda depende da Justiça. Quando
ainda era adolescente, aos 17 anos,
se submeteu a uma cirurgia neurológica
em Curitiba. Ele saiu de Ponta Grossa
com um diagnóstico e foi operado
por outro motivo na capital, ainda
dentro da mesma especialidade. Ficou
na Unidade de Terapia Intensiva (UTI)
e logo depois entrou em estado vegetativo.
Devido ao esforço da família,
conseguiu se recuperar aos poucos
e hoje está quase andando.
A cirurgia fatídica ocorreu
em 10 de julho de 1997 e desde então
a família luta na Justiça
para obter uma solução.
Felipe tinha 17 anos e uma vida normal
quando ocorreu o problema. Nove anos
depois, ele vive numa cadeira de rodas.
O pai, Ivo Bittencourt Filho, chega
a gastar de R$ 3 mil a R$ 5 mil por
mês para a manutenção
de sua vida. Mas, o tratamento ideal
de reabilitação, segundo
ele, custaria em torno de R$ 15 mil.
Para obter acesso a esse tratamento,
a família de Felipe luta na
Justiça para obter a tutela
antecipada que obriga os réus
do processo a pagarem o tratamento.
No entanto, para se chegar a essa
etapa do processo, Ivo Bittencourt
aguarda há quase cinco anos
o laudo pericial para a comprovação
de erro médico. O Ministério
Público já elaborou
o laudo que comprova o erro médico,
mas o documento não é
aceito pela Justiça por não
ser oficial.
“Eu me sinto como um pai que
sai de casa com dinheiro para comprar
remédio para seu filho que
está doente e gasta o dinheiro
numa boate. Sinto que meu filho está
completamente abandonado no momento
que ele mais precisa”, afirma
Ivo Bittencourt, que reclama do “abandono”
do poder público.
Site
– O drama da família
está no site www.casofelipe.com.br.
No site pode ser encontrado o link
que leva para o site www.erromedico.org,
criado por um mineiro para aglutinar
todos os casos de erro médico
registrados no País e relatar
a agonia dos familiares em busca de
uma solução judicial.
Crianças
também são vítimas
Um
garoto de três anos e meio de
idade foi submetido a uma cirurgia
de adenóide (carne esponjosa)
em setembro de 1999. Após sair
do centro cirúrgico faleceu,
deixando futuros sete anos de luta
na Justiça e a dor de sua ausência
para seus familiares. Um menino de
4,5 quilos nasceu de parto normal
há dois anos. Devido ao tamanho
e à não realização
de cesariana, uma veia do cérebro
foi deslocada e a clavícula
foi quebrada no momento em que era
retirado do ventre de sua mãe.
O garoto ainda é submetido
a tratamento em Curitiba, mas os movimentos
do seu braço não voltarão
ao normal.
O pai do garoto falecido, Evaldo Specalsiki,
briga na Justiça para que os
responsáveis sejam punidos
civil e criminalmente. A resposta
foi favorável à família
do garoto em primeira instância,
mas o caso civil ainda é analisado
no Tribunal de Justiça em Curitiba.
Conforme Specalsiki, ele trocaria
as sentenças da Justiça
pelo posicionamento do Conselho Regional
de Medicina. “Os responsáveis
têm que ter seus registros cassados”,
afirma. Ainda não há
posicionamento do Conselho para a
denúncia, registrada diretamente
em Curitiba.
Quanto ao menino de dois anos, o caso
ainda é analisado na Justiça,
em Ponta Grossa. A mãe, Karen
Regina Martins, conseguiu a aposentadoria
por invalidez junto ao Instituto Nacional
de Seguro Social (INSS) até
2010. A pensão a ajuda nas
despesas com o tratamento do filho.
Ainda assim, ela enfrenta o desgaste
de viajar em média a cada três
meses para Curitiba, no Hospital Pequeno
Príncipe, para efetivar o tratamento,
já que ele não está
disponível em Ponta Grossa.
O fator complicador, devido à
sua última cirurgia, é
que ele está com anemia profunda
por ter perdido muito sangue na operação.
O temor da mãe é que
a anemia profunda se transforme em
leucemia.
Lorhan
- Quem é portador de leucemia
é o garoto Lorhan, de sete
anos. Ele se tornou conhecido e recebeu
o apoio de toda a sociedade ponta-grossense
depois que sua família iniciou
uma campanha, há cinco meses,
para encontrar um doador de medula
óssea compatível. Embora
não seja vítima de erro
médico, Lorhan e os pais sofrem
com a falta de estrutura no sistema
de saúde em Ponta Grossa. A
cidade não possui um oncologista
pediátrico e portanto todo
o tratamento é feito no Hospital
Pequeno Príncipe, em Curitiba.
Conforme o padrasto de Lorhan, Ismael
Calixto, uma vez por semana a família
vai à Capital. Quando ele precisa
de internamento é a avó
de Curitiba que o acompanha em seu
leito de hospital.