::MATÉRIA
PUBLICADA NA TRIBUNA DO POVO, EM ARARAS/SP,
EM 25/11/2003::
Irmã
de falecido acusa médico de
negligência
Ela
alega que seu irmão de 38 anos,
falecido no início do mês,
foi operado e teve alta do hospital
mesmo apresentando sintomas de infecção
ANA
MARIA DEVIDES
A
vendedora Rosemary Rezende
da Silva, moradora do Núcleo
Habitacional Dr. Narciso Gomes, está
acusando um médico do Hospital
São Luiz de ter negligenciado
o atendimento a seu irmão,
o operador de máquinas Maurício
Pereira da Silva, de 38 anos.
Maurício
faleceu no dia 1º de novembro
último, no HSL, e, segundo
a certidão de óbito
nº 17.608, lavrada no cartório
local, as causas da morte foram parada
cárdio-respiratória
e septisemia (infecção
generalizada, provocada pela multiplicação,
na corrente sanguínea, de microorganismos,
como bactérias, fungos ou vírus).
De
acordo com Rosemary, seu irmão
Maurício passou em junho deste
ano por uma cirurgia no intestino,
feita por profissionais do hospital
Pró Saúde. Dessa cirurgia,
o operador de máquinas teria
saído sem complicações,
com exceção do uso de
colostomia (comunicação
cirurgicamente construída entre
o intestino grosso e o meio externo).
Maurício chegou a ficar num
CTI (Centro de Terapia Intensiva)
em Rio Claro, mas a medida teria sido
preventiva. "A orientação
médica na época era
para que ele usasse a colostomia por
uns três ou quatro meses, e
depois ela seria retirada, e ele passaria
a eliminar as fezes pelos meios normais",
relata a vendedora.
A
recuperação de Maurício
da primeira cirurgia, segundo a irmã,
foi normal.
A
segunda cirurgia
De
acordo com Rosemary, Maurício
procurou outro médico, do corpo
clínico do HSL, para a cirurgia
que normalizaria suas funções
intestinais, porque o hospital tem
CTI própria. "O Pró
Saúde não tem CTI e
nós não queríamos
arriscar", diz ela. A segunda
cirurgia foi no dia 21 de outubro.
Cerca
de 24 horas depois dessa segunda intervenção
cirúrgica, segundo Rosemary,
Maurício teria apresentado
febre alta. "Ele chegou a apresentar
40 graus de febre, que depois baixaram
para 38 e, horas depois, para 37,8
graus", relata ela, que afirma
ter levado, da própria casa,
um termômetro para conferir
o estado do irmão paralelamente
às aferições
feitas pelas enfermeiras do HSL.
Nesse
período, Rosemary conta que
o irmão estaria sendo medicado
com antibióticos. "Mas
a temperatura dele nunca mais se normalizou,
e eu avisei ao médico. Só
que ele dizia que 37,8 graus não
caracterizada febre", afirma
ela.
Além
da temperatura, considerada anormal
por Rosemary, Maurício também
se queixava de dor constante, que
ele dizia sentir desde o ponto onde
recebeu um dreno, até o ombro.
"Nenhum analgésico tirava
a dor dele e eu também avisei
ao médico, disse que não
achava normal, mas ele chegou a dizer
que era pelo fato de o meu irmão
ter ficado muito tempo deitado",
conta.
No
dia 25 de outubro, um sábado,
o médico responsável
por Maurício deu alta ao paciente,
mesmo diante do questionamento de
Rosemary. "Eu dizia que era melhor
ver o motivo da febre e da dor, mas
como meu irmão dizia que queria
muito ir para a casa e o médico
falava que estava tudo normal, ninguém
me deu ouvidos", diz ela.
Volta
para a mesa de cirurgia
Em
casa, Rosemary conta que Maurício
não se livrou da dor e do que
ela chama de 'estado febril'. "Reclamei
com o médico várias
vezes, dei antibióticos e analgésicos,
mas ele só piorava", conta
ela, que afirma ter realizado normalmente
as trocas de curativo do irmão,
seguindo orientação
médica.
Na
noite do domingo, dia 26, Maurício
foi levado às pressas para
o HSL, onde chegou com muita dor e
problemas para respirar.
"Uma
médica de plantão no
Pronto-Socorro nem quis colocar a
mão nele, disse que ele provavelmente
voltaria ao Centro Cirúrgico",
relata Rosemary.
A
vendedora conta que Maurício
passou a noite com dores e recebeu
a visita do médico que o operou
antes na manhã de segunda-feira,
dia 27. "Ele voltou para a mesa
de cirurgia e, no final, o médico
disse que 'tínhamos voltado
à estaca zero', porque ele
sairia de lá novamente com
a colostomia", diz ela.
Rosemary
diz que o médico teria dado
explicações contraditórias
sobre os procedimentos e o estado
de seu irmão. "No fim,
me disseram que um ponto interno havia
rompido e que ele apresentava um quadro
séptico", relembra. "O
próprio médico me disse,
na tarde do dia 27, que o caso do
meu irmão era grave",
conta.
Descontente
com o atendimento, Rosemary diz que
tentou fazer com que outro médico
assumisse o caso do irmão,
mas não conseguiu atendimento.
"Me disseram que era por questões
éticas", diz.
Nos
dias que se seguiram à segunda
cirurgia, Rosemary conta que o irmão
foi mantido em 'coma induzido'. Na
madrugada do dia 1º de novembro,
Maurício faleceu, no CTI do
Hospital São Luiz.
Sem
respostas
Ao
saber da morte do irmão, Rosemary
registrou um Boletim de Ocorrência
na Delegacia do Município.
Sob número 3433/03, e de natureza
'comunicação de fato',
o documento registra que a vendedora
suspeita de negligência médica.
"Eu acho que no período
pós-operatório o médico
cometeu erros. A infecção
que detectaram no dia 27, quando abriram
novamente meu irmão, não
se formou de uma hora para outra.
Ele estava febril e com dor muito
antes, nos últimos cinco dias",
diz ela, indignada.
Rosemary
solicitou ao HSL a documentação
referente ao irmão, mas o pedido
foi negado. Ela diz que chegou a pegar
os documentos nas mãos dentro
do hospital, mas foi obrigada a devolvê-los.
Em resposta ao seu ofício,
endereçado à diretoria
clínica do hospital, a alegação
é de indeferimento. "Somente
em mandado judicial", respondeu
a instituição.
A
vendedora contratou advogados para
cuidar do caso. "Os documentos
foram pedidos através da Justiça,
e estou aguardando. Pretendo ir até
o fim", garante.
Rosemary
diz que só terá contato
com o médico que atendeu o
irmão durante procedimentos
judiciais. "Serei a sombra dele,
mas só falo com ele fora de
seu território", alfineta.
Outro
lado
O
médico acusado por Rosemary
foi procurado pela reportagem, mas
em seu consultório a informação
ontem à tarde era de que ele
viajava a trabalho, e permaneceria
fora da cidade até o fim da
semana.
O
OUTRO LADO, PUBLICADO EM 02/12/2003
Diretor
clínico do hospital dá
sua versão
O
diretor clínico do Hospital
São Luiz, o médico
Humberto Rodrigues Júnior,
disse na sexta-feira que o hospital
baseou-se em orientações
legais para recusar-se a entregar
os documentos de Maurício Pereira
da Silva à irmã do paciente,
Rosemary Rezende da Silva.
Maurício
faleceu no HSL no dia 1º de novembro,
em decorrência de parada cardíaca
e septicemia (infecção
generalizada). Ele passou por uma
cirurgia no intestino no dia 21 de
outubro.
A
irmã de Maurício registrou
Boletim de Ocorrência na Delegacia
do Município, acusando o médico
responsável pela cirurgia de
negligência. Rosemary alega
que o irmão, 24 horas após
a cirurgia, teve uma febre de 40 graus,
e apresentou, nos dias seguintes,
'estado febril', com 37,8 graus de
temperatura, além de dor da
região da cirurgia até
o ombro, sintomas que não impediram
o médico de dar alta ao paciente
no dia 25.
Além
de registrar o B. O., Rosemary pediu
ao hospital através de ofício
a documentação referente
ao atendimento do irmão, mas
o pedido foi negado pelo diretor clínico,
que disse só atender se fosse
via mandado judicial.
Ontem
o diretor clínico disse que
a própria Justiça orienta
o hospital nesse sentido. "A
responsabilidade de guarda desses
documentos é do diretor clínico.
É nosso dever resguardar essa
documentação e só
fornecê-la com critério,
a pedido da Justiça, por exemplo",
disse ele.
O
diretor clínico disse que Maurício
teve uma contaminação
peritonial por material fecal, de
alto poder de infecção.
"Os documentos que comprovam
todo o atendimento estão à
disposição da Justiça",
disse ele, acrescentando que "os
questionamentos da irmã do
paciente sobre se ele devia ter receber
alta ou não são entre
ela e o próprio médico".
Código
de ética
O
acesso do paciente aos documentos
referentes a seu atendimento é
garantido pelo CEM (Código
de Ética Médica). No
artigo 70, o CEM diz que "é
vedado ao médico negar ao paciente
acesso a seu prontuário médico,
ficha clínica ou similar...
salvo quando ocasionar risco para
o paciente ou terceiros".
A
reportagem tentou na sexta-feira ouvir
o departamento jurídico do
Conselho Regional de Medicina de São
Paulo para saber sobre a conduta com
a família de um paciente falecido,
mas até o fechamento desta
edição não houve
retorno ao questionamento.
A
irmã do paciente diz estar
interessada na apuração
dos fatos. "O que quero agora
é apurar o que realmente aconteceu,
ter respostas que ele (o médico)
nem se preocupou em dar. Não
me foi dada nenhuma outra alternativa,
foram negados todos os nossos direitos",
conclui.
Entenda
o caso
•
Junho de 2003 - O operador de máquinas
Maurício Pereira de Lima, de
38 anos, interna-se no Hospital Pró
Saúde para realizar uma cirurgia
no intestino. Fica algumas horas num
CTI (Centro de Terapia Intensiva)
em Rio Claro por prevenção.
Segundo sua irmã, a vendedora
Rosemary Rezende da Silva, a recuperação
de Maurício é normal,
restando-lhe apenas uma colostomia
(comunicação cirurgicamente
construída entre o intestino
e o meio externo) que deveria ser
fechada três ou quatro meses
depois.
•
Setembro de 2003 - Atendendo determinação
médica feita pelo Hospital
Pró Saúde, que não
possui CTI próprio, a família
de Maurício procura um médico
do corpo clínico do Hospital
São Luiz, que tem CTI, para
fazer o fechamento da colostomia e
devolver ao operador de máquinas
as funções intestinais
normais.
•
21 de Outubro de 2003 - Maurício
passa pela cirurgia de fechamento
da colostomia no Hospital São
Luiz. No dia seguinte, segundo a irmã,
o paciente apresenta febre de 40 graus.
A temperatura baixa para 37,8, com
antibióticos. Mas Rosemary
suspeita de infecção,
diz que considera o quadro como 'estado
febril', e avisa o médico,
que julga o paciente em recuperação
normal. Maurício sente dor,
que o médico atribui ao fato
de ele ter permanecido 'muito tempo
deitado'.
•
25 de Outubro de 2003 - O médico
dá alta a Maurício,
apesar dos protestos da irmã.
Em casa, toma analgésicos e
antibióticos receitados pelo
médico, mas seu estado se agrava.
•
26 de Outubro de 2003 - Maurício
é levado às pressas
de volta ao Hospital São Luiz,
onde uma médica do Pronto-Socorro
afirma que não pode medicá-lo
porque ele está muito 'distendido'
e que provavelmente terá de
voltar ao Centro Cirúrgico.
A família avisa que o médico
que operou Maurício está
a caminho. Nesse mesmo dia o médico
visita o paciente, pede um exame de
raio-x e determina que Maurício
receba uma sonda. O médico
retorna no dia seguinte.
•
27 de Outubro de 2003 - O paciente
é levado novamente à
mesa de cirurgia. O médico
diz que a situação 'voltou
à estaca zero' e que Maurício
tornou a precisar da colostomia. Nos
dias seguintes seu quadro se agrava.
Rosemary diz que as explicações
do médico são contraditórias.
A família é avisada
de que 'um ponto interno rompeu'.
Maurício apresenta quadro séptico.
•
1º de Novembro de 2003 - Maurício
falece, segundo a Certidão
de Óbito, por parada cárdio-respiratória
e septicemia'.
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