Não
acredito que haja dor maior
que a morte de um filho. A princípio
é uma dor bruta, sem
forma ou sem cores, como se
fosse uma montanha de pedra
que se assenta sobre o peito,
eternamente. Com o passar do
tempo essa dor bruta se transforma.
Passa a ser muitas, cada uma
com um rosto diferente, falando
coisas diferentes.
Há
aquela dor que é pura
tristeza pela ausência.
Ela só chora e diz:
"Nunca mais...".
Outra é aquela dor
que se lembra das coisas que
foram feitas e deveriam ter
sido feitas: a palavra que
não foi dita, o gesto
que não foi feito.
É a dor da saudade
misturada com a tristeza da
culpa. E há outra dor:
a tristeza de que o filho
não tenha completado
o que começara.
Existe
grande alegria em terminar
a obra que se iniciou: ver
a casa pronta, o livro escrito,
o jardim florescendo. A vida
de um filho é assim:
um sonho a ser realizado.
Aí vem o impossível
meteoro que estilhaça
o sonho. Fica a casa não
terminada, o livro por escrever,
o jardim interrompido.
Essa
era uma das dores daquele
pai que me falava da sua dor
pela morte do filho... Assim
sentia aquele pai: seu filho
era uma sonata que mal se
iniciara... Compreendi, de
repente, que a dor da sonata
interrompida se deve ao fato
de que vivemos sob o feitiço
do tempo. Achamos que a vida
é uma sonata que começa
com o nascimento e deve terminar
com a vellhice. Mas isso está
errado. Vivemos no tempo,é
bem verdade. Mas, é
a eternidade que dá
sentido à vida. Eternidade
não é o tempo
sem fim. Tempo sem fim é
insurportável. Eternidade
é o tempo completo,
esse tempo do qual a gente
diz:"Valeu a pena".
Compreendi,
então, que a vida é
uma sonata que, para realizar
a sua beleza, tem que ser
tocada até o fim. Dei-me
conta, ao contrário,
de que a vida é um
álbum de minissonatas.
Cada momento de beleza vivido
e amado, por efêmero
que seja, é uma experiência
completa que está destinada
à eternidade. Um único
momento de beleza e amor justifica
a VIDA inteira.