::Diga
“não” à
Receita Analfamédica.
Dr.
Alessandro Loiola*
Compreender os mecanismos que nos
levam a adoecer é o primeiro
passo para tratar a doença
em si – afinal, a prevenção
ainda é o melhor remédio.
Quando tropeçamos no desafio
deste primeiro passo, só nos
resta dar o segundo: procurar auxílio
e tomar os remédios prescritos
pelo médico. E aqui reside
uma armadilha sutil.
Não
vivemos em um mercado de trabalho
capitalista: vivemos em um mercado
“canibalista”. E entre
garfos e facas, encontrar um profissional
em quem confiar pode ser razoavelmente
difícil. Encontrar um profissional
em quem confiar e que tenha uma receita
legível, então, é
quase como ganhar sozinho na mega-sena.
Pensando
melhor, ganhar na mega-sena não
é tão difícil
assim...
O
fato é que a má-caligrafia
dos médicos é legendária,
quase um fato inexorável da
natureza. “O céu é
azul, a água é molhada
e a letra do meu médico...
vixi, nem te conto...”.
Depois de anos de estudos, muitos
médicos ainda não conseguiram
alfabetizar sua letra, e continuam
emitindo receitas Analfamédicas
– aqueles papéis contendo
algo que deveria ser uma receita,
mas guardam uma semelhança
muito grande com registros psicográficos
de uma crise convulsiva.
Talvez
estes médicos possuam algum
tipo de distúrbio de condução
cerebral que faz com que a letra saia
sempre no alfabeto cuneiforme. Ou
queiram se comunicar com os farmacêuticos
através de códigos,
movimentando uma seita conspiratória
de bilhões de dólares
para construir bases nucleares na
Amazônia e roubar os rins de
adolescentes indefesos... Qualquer
que seja o motivo alucinógeno,
é possível calcular
intuitivamente (ou seja: chutar) que
mais ou menos 85% das receitas médicas
são quase incompreensíveis
para os não-iniciados. Os 15%
restantes são incompreensíveis
até para arqueólogos
experientes.
E
aqui vai a boa notícia do dia:
você não precisa enfrentar
nada disso.
Não precisa e não deve!
Em
1995, nos EUA, o texano Ramon Vasquez
faleceu vitimado por um infarto cardíaco
aos 42 anos de idade. A família
imediatamente processou seu cardiologista,
Dr. Ramachandra Kolluru. O motivo:
devido à receita analfamédica
do Dr. Kolluru, Ramon havia passado
duas semanas utilizando doses elevadas
de Plendil (um remédio contra
hipertensão arterial) quando,
na verdade, deveria estar tomando
Isordil (um medicamento que promove
dilatação das artérias
coronárias, diminuindo o risco
de infarto cardíaco). Em 1999,
o veredito: Dr. Kolluru foi condenado
a pagar uma indenização
de módicos US$ 225.000 à
família do falecido. O farmacêutico
responsável pela entrega equivocada
do remédio foi multado em outros
US$225.000. E esta ação
entrou para a história como
a primeira condenação
de um médico nos EUA por negligência
devido à má-caligrafia.
De
acordo com o Federal Drug Administration
(FDA), órgão dos Estados
Unidos responsável pela fiscalização
dos remédios naquele país,
1,3 milhão de americanos são
prejudicados a cada ano em decorrência
de erros tais como tomar doses incorretas
ou fazer uso do medicamento errado.
Um estudo publicado no renomado jornal
médico The Lancet estimou que,
entre 1983 e 1992, o número
de mortes causadas por erros deste
tipo aumentou 250%, ultrapassando
7.000 casos por ano.
Existem
várias soluções
para o problema da má-caligrafia
dos médicos: datilografar prescrições,
utilizar um computador com impressora,
comprar um daqueles cadernos com linhas
azuis e fazer aulas de reforço
no pré-primário ou,
simplesmente, caprichar um pouco mais
na qualidade da letra.
O
Conselho Federal de Medicina do Brasil
considera a má-caligrafia anti-ética
e um exemplo de má-prática
médica que deve ser coibida
a todo custo (Código de Ética
Médica, resolução
n° 1246/88, artigo 39). Você
tem o DIREITO de receber uma receita
legível e, caso o médico
se recuse a escrever de modo compreensível,
pode ser denunciado e até mesmo
penalizado pelo Conselho Regional
de Medicina do seu estado. A partir
de hoje, diga “sim” à
sua saúde e NÃO à
receita analfamédica.
*Dr. Alessandro Loiola é
médico, escritor, palestrante
e autor de Vida e Saúde da
Criança e Obesidade Infantil.
Atualmente reside e clinica em Belo
Horizonte, Minas Gerais.