Caso
Renata Vieira Gonçalves Lopes
Brasília - DF
Negligência
Médica: O Caso Renata - Por
Luiz Felippe Gonçalves
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a reportagem veiculada no programa
"Inclusão",
da TV Senado. Clique abaixo, conforme
a sua conexão:
Revista
Foco - Brasília - DF
A Medicina e seus limites:
Até onde os médicos
estão certos?
Por Fernanda
Tallarico – Fotos: Rodrigo Lopes
Renata
Vieira Gonçalves Lopes,
vítima de negligência
médica |
Uma
família unida e feliz.
Casada com o bancário
Carlos Alberto Pereira Lopes,
de 39 anos, Renata Vieira
Gonçalves Lopes, 35
anos, era secretária
do presidente da Embrapa.
Formada em Comércio
Exterior, estava cursando
o terceiro período
de Jornalismo no UniCeub.
Sempre
foi muito estudiosa e dedicada.
Viajou para vários
países e conheceu diversas
culturas. Dominava a língua
inglesa e estudava espanhol.
Nunca fumou nem bebeu; praticava
esportes desde muito pequena,
entre eles, natação.
Além disso, sempre
foi uma amante da dança.
Uma
mulher completa? Quase...
O maior desejo de Renata era
ser mãe.
Depois
de tentar engravidar durante
três anos, sem êxito
algum, Renata resolveu procurar
uma clínica, com o
fim de descobrir os reais
motivos de sua infertilidade
e começar um tratamento
para que o seu sonho se tornasse
realidade.
|
No
dia 28 de fevereiro de 2002, Renata
foi atendida pelo médico Joaquim
Roberto Costa, especializado em Saúde
Reprodutiva pela John's University
e em Reprodução Assistida
e Histeroscopia pelo Instituto Dexeus
na Espanha, para submeter-se ao exame
de videolaparoscopia (técnica
para identificação de
patologias ginecológicas),
no Centro de Endoscopia e Assistência
à Fertilidade (Cenafert), na
QI 03, no Lago Sul. Ela não
sabia que a partir daquele momento
sua vida e seus sonhos iriam desmoronar.
Nesse
dia, após fazer o exame, ela
deveria voltar para casa em, no máximo,
duas horas. Mas, não foi o
que aconteceu. Durante o procedimento
médico, Renata sofreu uma parada
cardiorrespiratória após
a anestesia, e teve de ser transferida
às pressas para a Unidade de
Terapia Intensiva do Hospital Brasília.
Antes, no entanto, os médicos
já haviam precisado ressuscitar
Renata que, ainda na sala de cirurgia,
ficou com a pressão e os batimentos
cardíacos reduzidos a zero:
tecnicamente morta. Depois de muitas
massagens cardíacas, e de ter
recebido doses de adrenalina e atropina,
ela voltou a respirar. Mas, o quadro
ainda era de risco.
Começava
ali a peregrinação da
família para tentar reanimar
Renata. Um médico amigo e de
renome, do Rio de Janeiro, foi chamado
pelos pais. Percebendo a gravidade
do problema, o médico aconselhou-os
a transferirem Renata para o Hospital
Barra D'or, no Rio. Lá, foram
53 dias de intenso acompanhamento,
mas já era um pouco tarde.
A grave lesão cerebral fez
com que Renata perdesse pelo menos
40% da audição, da visão
e dos movimentos. Ao voltar para Brasília,
Renata foi internada no Hospital Sarah
Kubitschek.
OUTUBRO
DE 2005.
Três
anos e oito meses de muito sofrimento
se passaram... Hoje, Renata está
na casa dos pais, em estado vegetativo,
e as seqüelas da lesão
cerebral se agravaram muito com o
tempo. O apartamento foi totalmente
adaptado às suas necessidades.
Ela dorme em uma cama hospitalar,
tem uma cadeira de rodas para levá-la
para passear, uma kombi especial para
o seu transporte, além de ser
assistida por uma equipe multidisciplinar
formada por seis enfermeiras, uma
fonoaudióloga e dois fisioterapeutas
à sua disposição.
São muitos os cuidados especiais,
cerca de 15 médicos especialistas
acompanham o tratamento de Renata.
Os gastos por mês somam mais
de R$ 10 mil.
Apesar
de respirar sozinha e de não
precisar de aparelhos para viver,
ela não compreende nada do
que ocorre a sua volta. Os olhos estão
abertos, mas o coma continua profundo.
Ela tem apenas 10% da visão
do olho direito, não fala e
nem consegue comer. A alimentação
é feita por meio de uma sonda,
ligada à sua barriga. O máximo
que faz é gemer de dor, porque
suas mãos e pés ficam
amarrados para não atrofiar
em ainda mais, pela falta de uso.
NA
JUSTIÇA
A
família de Renata culpa a equipe
do Cenafert por erro médico
que a levou ao estado de coma. Está
processando civil e criminalmente
o dono do Centro, Joaquim Roberto
Costa e dois anestesiologistas –
Demetrius Magnus Ribeiro e Christine
Soares Tavares.
A
Pró-Vida, por intermédio
do promotor Diaulas Ribeiro, processa
a equipe por lesões corporais
graves. Os três médicos
poderão ser condenados à
pena de dois a cinco anos de prisão.
E ao pagamento de indenização
por danos morais e materiais.
No
julgamento da classe médica,
Joaquim Roberto Costa já foi
inocentado. O ginecologista foi absolvido
pelos 21 conselheiros do Conselho
Regional de Medicina do Distrito Federal
(CRM-DF), por unanimidade.
AMOR
E DEDICAÇÃO
“Felipão,
é assim que sou conhecido”,
apresenta-se, com um tímido
sorriso no rosto, Luiz Felippe
Gonçalves, o pai de
Renata. Economista, aposentado
pelo Banco Central, ele é
um amante de carros antigos.
Tem vários espalhados
pelas garagens particulares
de Brasília. Pai de
três filhos, dos quais
Renata é a caçula.
Antes da tragédia com
a filha, ele contou que sua
família era muito feliz
e festeira. “Agora não
há mais espaço
para alegria nesta casa”,
disse emocionado. Apesar de
muito abatido, “Felipão”
é um pai dedicado,
amoroso e muito carinhoso.
Ele
acompanha diariamente o tratamento
de Renata, coordena e ajuda
as enfermeiras, e não
faz outra coisa além
de se empenhar e ajudar outras
pessoas que sofreram com erro
médico. Em
2003, ele fundou a Associação
das Vítimas de Erros
Médicos em Brasília
(Avemb), que tem como objetivos
instruir, principalmente,
pessoas de baixa renda que
passaram por algum tipo de
negligência e punir
os médicos responsáveis.
“Desde que a associação
foi criada, há dois
anos, recebemos cerca de 400
reclamações
de familiares e pessoas vítimas
de erro médico no DF
e região do Entorno",
conta.
|
Luiz
Felippe Gonçalves,
pai de Renata |
O
marido de Renata, Carlos, também
é muito atencioso e cuidadoso.
Ele conversa sempre com Renata. Ao
chegar do trabalho, ele sempre lhe
dirige algumas palavras, dá
um beijo e repete: eu te amo. “Faço
isso para não enlouquecer”,
confessa. “Tenho de acreditar
que ela ainda está aqui, de
alguma maneira”.
Enquanto
tiver esperanças, usará
duas alianças douradas na mão.
A dele e a de Renata. No peito, o
coração de ouro que
a mulher usava. Por meio desses objetos
ele sente a presença da companheira,
com quem está casado há
14 anos. As fotos mostradas pelo sogro
retratam um casal sorridente e ativo.
Mas nem o homem nem a mulher da foto
são os mesmos. A Renata de
hoje tem olhar vazio e as pernas –
torneadas pela natação
e pela dança flamenca –
deformadas. O homem também
mudou muito. Está muito mais
magro e com uma indescritível
expressão de tristeza estampada
no rosto. “Minha vida é
só para ela”, afirmou.
QUANDO
OS MÉDICOS ERRAM
O
caso de Renata é um exemplo
de várias denúncias
de negligência médica
feitas não só em Brasília,
mas em todo o Brasil. Afinal, o que
é considerado erro médico?
Como proceder diante de uma suspeita?
Luiz Fernando Salinas, 2º secretário
do Conselho Regional de Medicina do
DF, responde.
Qual
é o papel do Conselho de Medicina?
O
Conselho Federal de Medicina é
um órgão que atua exclusivamente
em defesa da sociedade. Ele não
foi criado pelos médicos, mas,
sim pela lei; não tem associados,
credenciados... Portanto, se surge
uma notícia no jornal sobre
algum ato estranho à prática
médica, o Conselho vai apurar.
O
que leva o Conselho de Medicina a
abrir um processo contra um médico?
Nós
temos que receber uma denúncia
formal, documentada, de uma eventual
conduta inadequada do médico.
Há os indivíduos que
vêm aqui e fazem a denúncia
formalmente e há aqueles que
a encaminham a partir do que a imprensa
divulga. Ao tomarmos conhecimento
dessa denúncia, abrimos uma
sindicância no Conselho. A partir
daí é feita uma avaliação
inicial sobre aquela denúncia
e um conselheiro emite um parecer,
levado para uma plenária que
avalia se realmente há indícios
de infração médica.
Havendo indícios, é
aberto o processo.
O
que caracteriza um erro médico?
O
erro médico é a conduta
inadequada que se caracteriza por
uma imprudência, por uma imperícia
ou por uma negli-gência. A imprudência
ocorre quando o médico faz
o que não deveria ter feito,
ou porque não tinha habilitação
para isso, ou porque não tinha
meios para fazê-lo. Imperícia
é fazer mal o que deveria ser
bem feito. E a negligência é
deixar de fazer o que deveria ter
sido feito, por omissão, descaso.
É o médico que não
está olhando o paciente como
uma pessoa.
Qual
é o erro médico que
acontece com mais freqüência
em Brasília?
O
maior índice de denúncias
no Conselho diz respeito à
infração ao artigo 29
do Código, que veda ao médico
praticar atos danosos ao paciente
que possam ser caracterizados por
imprudência ou negligência.
Essa questão hoje está
se intensificando, porque o médico
está deixando de lado a cabeceira
do doente. O médico não
está mais ouvindo; hoje ele
tem o eletrocardiograma que faz isso
para ele. Ele não precisa mais
apalpar a barriga do doente, pois
a ultra-sonografia lhe oferece uma
imagem. A maior reclamação
é justamente a falta de atenção
dos médicos com os pacientes.
O erro aqui é muito mais pela
negligência do que pela imperícia.
Falta
mais atenção à
relação médico-paciente?
O
exercício profissional da medicina
é uma atividade eminentemente
humanitária e social, e tem
na relação médicopaciente
seu pilar fundamental, cujo único
alvo deve ser o homem e sua saúde.
Não podemos colocar em primeiro
lugar valores técnicos e científicos,
transformando o médico em técnico
de Medicina. Os futuros médicos
precisam estar atentos a isso e reverter
esse quadro, para que efetivamente
sejam formados bons profissionais
do pondo de vista técnico,
ético e
humanitário.
Diante
do crescimento dos casos de erro médico,
o Conselho Regional de Medicina de
São Paulo propôs a criação
de um exame de habilitação
para formandos em medicina, como o
exame aplicado aos advogados recém-formados
pela Ordem dos Advogados do Brasil
(OAB). Qual é a sua opinião?
Eu,
particularmente, sou contra. A questão
é se o formando pode ou não
exercer a profissão. Não
basta ter habilidade técnica
para ser médico. Médico
trata de gente, de vida. Como podemos
avaliar o humanismo de uma pessoa
com um exame? Médico tem que
gostar de gente para exercer a profissão.
Você vai evitar a negligência
em uma prova de múltipla escolha?
Eu acho que não.
Casos
mais comuns:
•
Falta de cuidados durante o parto.
• Anestesia sem teste de alergia.
• Maus resultados em cirurgias
plásticas.
• Uso inadequado de aparelhos
ou instrumentos de cauterização.
• Esquecimento de compressa
(gaze) ou instrumento cirúrgico
no paciente.
• Falta de higiene nos procedimentos
clínicos
• Prescrição de
remédio inadequado
• Alta hospitalar indevida
Previna-se
•
Cheque se o profissional é
habilitado no Conselho Federal de
Medicina (informações
no site www.portalmedico.org.br).
• Em caso de cirurgia, informe-se
se o médico possui título
de especialista ou residência
na área em que atua.
• Seja curioso: pergunte os
riscos do tratamento, previsão
de recuperação de uma
cirurgia, efeitos colaterais do medicamento
receitado.
• Em emergências, deve-se
dar preferência ao médico
que já conhece o histórico
do paciente.
• Peça a indicação
de um médico de confiança,
mesmo que de outra especialidade.
Como
proceder nas hipóteses de erro
médico:
1º)
Anotar o dia e hora dos fatos;
2º)
Anotar nomes completos e dados de
pacientes, médicos, enfermeiras
ou terceiros que tenham presenciado
ou comentado o fato;
3º)
Exigir um histórico médico
assinado pelo médico quanto
ao procedimento que originou o dano
ou lesão;
4º)
Exigir do hospital relatório
médico-hospitalar integral
a respeito do paciente;
5º)
No caso de lesão grave ou morte,
comunicar à polícia
e exigir autópsia;
6º)
No caso de omissão de socorro,
chamar imediatamente a polícia;
7º)
Comunicar formalmente ao Conselho
Regional de Medicina quando se tratar
de falha médica;
8º)
Providenciar todos os documentos em
cópias autenticadas;
9º)
Contratar um advogado ou procurar
a Defensoria Pública;
10º)
Formalizar denúncia, com cópia
dos documentos, perante o Ministério
Público, para que possa ser
examinado o aspecto criminal do erro
ou falha médica, ou hospitalar;
11º)
No caso de choque anafilático
ou problemas com o medicamento, solicitar
da polícia a análise
do produto.
Importante:
Só se recomenda entrar com
o processo quando há certeza
de que houve negligência, imperícia
ou imprudência. Erro não
é o mesmo que resultado insatisfatório.
SAIBA
SEUS DIREITOS
Visita
hospitalar
O
paciente poderá receber a visita
de filhos, ou qualquer parente, fora
do horário normal de visitas.
A mãe tem direito de permanecer
junto a seu filho durante todo o período
de internação.
Consulta
O
paciente tem o direito de exigir a
presença de um acompanhante
durante a consulta médica.
Atendimento
gratuito
O
paciente tem direito a atendimento
hospitalar gratuito nos hospitais
públicos. O atendimento gratuito
é obrigatório, pois
é feito com o pagamento de
impostos de todos nós.
Identificação
O
paciente tem o direito de saber qual
é o médico que o está
atendendo, bem como a sua especialização.
Sigilo
médico
O
paciente deverá contar com
o sigilo médico.
Gravação/filmagem
O
paciente poderá, desde que
previamente combinado, registrar sua
conversa, mediante gravação
ou filmagem.
Laudo
médico
O
paciente deverá exigir o laudo,
para fins de continuidade do tratamento
ou de alta médica.
Acesso
O
paciente tem direito ao acesso a:
seu prontuário; ficha clínica
e resultado de exames laboratoriais.
Clareza
O
paciente terá que dispor de
informações claras sobre
o diagnóstico médico,
tratamento e prognóstico. Exigir
a receita médica com letra
legível.
Telefones
úteis:
AVEMB: (61) 3225-4452
CRM-DF: (61) 3322-0001