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::Cirurgiões sem especialização

Dos 190 profissionais que atuam no ramo da medicina estética no DF, 50 não possuem treinamento adequado.
A prática, embora legal, aumenta o risco para os pacientes que se submetem a uma plástica


Diego Amorim
Da equipe do Correio Braziliense

 

Pouco mais de um quarto dos médicos que atuam no Distrito Federal e se dizem cirurgiões plásticos não tem especialização na área. De acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), pelo menos 50 profissionais estão em atividade em Brasília e nas cidades do DF sem terem conhecimento adequado para realizar esse tipo de cirurgia. São endocrinologistas, dermatologistas, ginecologistas que, quase sempre, fazem um curso de estética em um fim de semana ou, no máximo, um mês e se dão por satisfeitos. Expõem o diploma do curso na entrada da clínica e cobram abaixo do preço do mercado para atrair a clientela. Isso não é ilegal, mas, sem o devido treinamento, alguns doutores põem em risco a vida dos pacientes.

Existem atualmente 140 médicos cadastrados no banco de dados da SBCP. Isso garante que tais pessoas passaram por dois anos de estudo em cirurgia geral e três anos em cirurgia plástica em cursos credenciados pelo Ministério da Educação (MEC).

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

Luiz Felippe Gonçalves,
presidente da Associação das
Vítimas de Erros Médicos: “todo
mundo tem medo de médico.
Juiz tem medo de médico”


O problema é que não há legislação que proíba o médico de exercer a cirurgia plástica sem ter a devida especialização. Ou seja, uma vez médico, o profissional está liberado para entrar na sala de cirurgia. “Essa é a nossa dificuldade. A lei não está a nosso favor”, afirmou o presidente da SBCP no DF, Ognev Meireles Cosac.


Tragédias

Não é por menos que, dos 25 médicos envolvidos em sindicâncias instauradas no Conselho Regional de Medicina (CRM) em 2007 para investigar possíveis erros em cirurgias plásticas, 14 não eram especialistas. “As tragédias estão acontecendo. E não é por falta de aviso. Qualquer médico pode abrir uma clínica e fazer o que quiser”, alertou o defensor público de Taguatinga André de Moura Soares. Ele cuida com freqüência de casos em que mulheres de baixa renda são vítimas de erros médicos: “Elas são o principal alvo desses médicos porque não podem pagar muito por uma cirurgia”.

 


Patrícia Cavaliére morreu em
2005 após uma plástica
O Correio noticiou na última sexta-feira que pela primeira vez médicos do DF vão a Júri Popular por causa da morte de uma paciente (leia ponto crítico). O anestesista Orlando Gomes de Souza e o cirurgião plástico Valter Simões Deperon responderão pela intervenção malsucedida realizada em 1998 na professora aposentada de 47 anos Sônia Isis de Andrade. O Tribunal de Justiça do DF e Territórios (TJDFT) acatou a denúncia do Ministério Público, que acusa os médicos de homicídio com dolo eventual (quando se assume o risco de matar). “Espero que essa decisão sirva de exemplo para os médicos e para quem procura a cirurgia plástica como se estivesse indo a um supermercado, como se fosse algo simples”, desabafou Sandra Regina Andrade, irmã da vítima.

O engenheiro Rafael Berti Cavaliére, 51, leu a reportagem em Belo Horizonte, onde mora com os três filhos, e reviveu o drama enfrentado em Brasília pela família em 2005. A saudade da esposa, Patrícia Regina de Freitas Cavaliére, ainda machuca Rafael. “Ela era minha vida”, disse. Aos 46 anos, no auge da carreira profissional como uma das diretoras do Banco do Brasil, Patrícia foi vítima do que o marido considera um total descaso e irresponsabilidade dos médicos.

A história de Patrícia se parece com a de muitas mulheres. Com vontade de melhorar o visual, ela procurou um cirurgião plástico. Entrou na sala do médico Silvio Ferreira da Silva com a intenção de fazer pequenos reparos na barriga e saiu de lá convencida a encarar um “pacote completo” — que incluiria a redução do culote e a retirada de gordura nas costas. “Eles induziram ela a isso. Não tinha necessidade”, afirmou Rafael. A cirurgia foi um desastre. Patrícia não reagiu bem aos medicamentos, teve uma parada cardiorrespiratória e morreu depois de três dias em coma induzido. O MP denunciou o cirurgião Silvio Ferreira e a anestesista Rosana Peres Rabello. O processo está parado no TJDF.

Cicatrizes nos seios

A cabeleireira Raquel Silveira Pires, 29, sobreviveu para contar a própria história. Em 2000, ela decidiu reduzir os seios. Pagou o que podia pela cirurgia: R$ 3 mil. Mas o que era para torná-la mais feliz virou a causa de uma profunda depressão. Foram quase dois anos à base de remédios para tentar superar o trauma. “Eu não me aceito assim”, confessou. As cicatrizes não a deixam esquecer a intervenção de um cirurgião que atua em Brasília sem especialização. Raquel perdeu a sensibilidade dos seios, que doem e sangram até hoje. Ela recorreu à Defensoria Pública para conseguir ao menos o dinheiro necessário para fazer uma cirurgia de reparação dos danos. O processo corre em segredo de Justiça e, por isso, o Correio não pode divulgar o nome do médico.

Soma-se ao sofrimento dessas pessoas o do economista aposentado Luiz Felippe Gonçalves, 66, presidente da Associação das Vítimas de Erros Médicos de Brasília. No caso da filha dele, Renata Vieira Gonçalves Lopes, não se tratava de uma cirurgia plástica. Em fevereiro de 2002, a jovem de 32 anos, secretária da presidência da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), entrou na sala de cirurgia de uma clínica no Lago Sul para uma videolaparoscopia. Seria um procedimento simples. Ela queria apenas entender por que não conseguia engravidar depois de 11 anos de casada.

Renata vive hoje com o pai e a mãe em um apartamento da Asa Sul. Passa o dia deitada em um leito num dos quartos. Não ouve, não fala, não enxerga e está tetraplégica. O pai, na época, procurou o MP. Ele não tem dúvida de que o ginecologista Joaquim Roberto Costa Lopes tem responsabilidade pela tragédia que destruiu a vida de Renata. Depois de cinco anos em tramitação na Justiça, o processo prescreveu — acabou o prazo para que houvesse uma decisão definitiva. “Todo mundo tem medo de médico. Juiz tem medo de médico”, lamentou Luis Felippe, com dor e revolta.


Ponto crítico

Você concorda que casos como o da morte de Sônia Andrade durante uma cirurgia possam ser considerados dolo (quando há intenção ou assume-se o risco de matar)?

Sim

“Absolutamente, não há exagero nessa decisão. Se é erro médico, concordo que possa não ser dolo. Agora, quando o médico realiza uma cirurgia em uma clínica que ele sabe não ter as condições adequadas, ele está assumindo o risco de matar. Isso é lógico. O médico sempre foi visto como um ser superior, inatingível. Há muito protecionismo entre eles. Mas se o médico pode cometer um dolo clássico (com intenção de matar), quanto mais o eventual (quando se assume o risco). O dolo em casos médicos é muito mais comum do que a gente imagina. Basta colocar um promotor dentro de um pronto-socorro para constatar isso”.

Maria José Miranda, promotora do Tribunal do Júri de Brasília.

Nâo

“Cada caso tem suas particularidades. Mas, em tese, no plano teórico, erro médico não é dolo. São duas coisas incompatíveis. Não existe erro voluntário. Se o médico quer matar alguém, ele não o faz por erro ou por má técnica. O erro pode ser fruto de despreparo, de uma situação de imprudência grave, de negligência, mas não é dolo. Uma clínica não ter condições de funcionar, um médico que não tem qualificação para determinado trabalho, tudo isso é gravíssimo, mas não é necessariamente dolo. Que médico pretende exercer a medicina assumindo o risco de matar cada paciente que entra em sua sala de cirurgia? Não existe isso. Essa decisão foi um equívoco”.

Beatriz Vargas
Professora da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília, mestre em ciências penais.


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