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Vidas comprometidas
Processos
por erros médicos tramitando
no STJ praticamente triplicaram desde
2002. Conselho Federal de Medicina atribui
situação à falta
de condições de trabalho
e à má formação
dos novos profissionais.
Rodrigo
Couto
Da equipe do Correio
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A
falta de condições
de trabalho, a baixa
remuneração,
o estresse, o excesso
de escalas e a má
formação
dos novos médicos
— ocasionada principalmente
pelo grande número
de estabelecimentos
de ensino, estimado
em 176 (entre públicos
e privados) —
são apontados
pelo Conselho Federal
de Medicina (CFM) como
as principais causas
do crescimento dos erros
médicos no Brasil.
De 2004, quando foram
registrados 30 casos
no CFM, até 2008,
122 processos passaram
pela autarquia (veja
quadro). Os casos que
chegam até o
conselho já passaram
pelos conselhos regionais
de medicina. Segundo
o vice-presidente do
CFM, Roberto D’Avila,
se comprovado, o erro
médico pode resultar
em punições
que vão de advertências
à cassação
do direito de exercer
a profissão.
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Neide
e a filha Iléia, hoje
com 29 anos:
erro na anestesia durante cesariana
deixou a jovem paraplégica
e com
grave lesão cerebral
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As
vítimas também
têm procurado a Justiça
comum. Nos últimos seis
anos, o número de processos
por erro médico recebidos
pelo Superior Tribunal de Justiça
(STJ) cresceu pouco menos de
300%. De 2002 até hoje,
o total de ações
que tramitam na Corte passou
de 120 para 471. O vice-presidente
do CFM atribui os erros a
uma série de fatores,
constatados em estudos elaborados
pela autarquia. As falhas
dos profissionais estão
associadas à negligência,
imprudência e imperícia.
Uma das principais causas
para os erros citados por
D’Avila é a desvalorização
da profissão no país,
o que obriga o médico
a trabalhar em até
quatro empregos simultâneos.
“Além disso,
o Brasil, com uma população
de aproximadamente 190 milhões
de habitantes, é o
segundo colocado em todo o
planeta em número de
faculdades de medicina. Só
perdemos para a Índia.
A diferença é
que lá eles formam
profissionais que vão
atender mais de 1 bilhão
de habitantes”, afirma,
lembrando que as novas faculdades
deixam a desejar na formação
humanista dos médicos.
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Em
entrevista ao Correio, o ministro
da Saúde, José
Gomes Temporão, também
reconhece a baixa remuneração
dos médicos. “O
profissional médio brasileiro
tem vários empregos e
não tem tempo adequado
para se atualizar tecnicamente
e cientificamente”. De
acordo com o ministro, os baixos
salários levam os médicos
a assumirem outros vínculos
e a trabalharem em vários
plantões e escalas. “Ele
não segue o doente e
não tem ideia da sua
intervenção. Além
disso, o paciente percebe uma
baixa qualidade no sistema,
porque cada vez que ele busca
atendimento é um profissional
diferente que o recebe, com
uma outra abordagem. Além
do impacto negativo no exercício
da profissão do médico,
isso também reflete negativamente
na vida do doente, que não
consegue ter um vínculo
com a equipe médica.
E o programa Saúde da
Família vem exatamente
propor uma mudança nesse
padrão, quando se estabelece
um grupo formado por médico,
enfermeiro e agente comunitário
de saúde, que são
responsáveis por acompanhar
um conjunto de famílias”,
explica. Segundo Temporão,
50% dos médicos que atuam
no país não fazem
residência médica.
“O que por si só
já é um problema”,
acrescenta. |
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''O
profissional médico brasileiro
tem vários empregos e não
tem tempo adequado para se atualizar
tecnicamente e cientificamente'' -
José Gomes Temporão,
ministro da Saúde |
Batalha
na Justiça
Era
para ser uma cesariana, mas
o procedimento deixou Iléia
Cerqueira, 29 anos, paraplégica
(perda dos movimentos dos
membros inferiores) e com
uma grave lesão cerebral,
em coma total e vegetativo.
A jovem, que deu entrada no
Hospital Regional de Taguatinga
(HRT) em 31 de maio de 1996,
sofreu uma parada cardiorrespiratória,
após a aplicação
da anestesia, segundo relato
da mãe de Iléia,
a dona de casa Neide Cerqueira,
47 anos. “A culpa foi
do anestesista Arnoldo Furtado
Silva, que após aplicar
a medicação
na minha filha, foi para a
sala de repouso”, denuncia.
Neide só tomou conhecimento
do real estado de saúde
da filha em 2 de junho daquele
ano. “Achei estranho,
porque quando liguei para
saber da Iléia, eles
pediram para esperar por notícias
na minha casa. Não
aguentei e decidi ir até
o hospital visitar minha filha
e minha neta. A Iléia
estava na UTI e parecia uma
árvore de Natal, de
tão inchada.”
Ao
mesmo tempo em que ganhava
a neta Ilana Lima, hoje com
12 anos, a dona de casa iniciava
uma batalha na Justiça
para provar o erro médico
do qual a filha foi vítima.
“No dia da audiência,
em 1998, Arnoldo disse que,
após aplicar a anestesia,
pegou uma caneta para anotar
a medicação
para a Iléia. Mas,
graças a Deus, consegui
provar, através de
testemunhas, que ele foi descansar
e ainda subestimou a vida
da minha filha, afirmando
que ela ‘já era’,
e só fez o processo
de reanimação
após pressão
da equipe que trabalhava com
ele”, relata Neide.
Condenado, o anestesista pagou
150 salários mínimos
em 30 parcelas.
Numa
das idas ao fórum para
pegar documentos do processo,
a dona de casa ficou sabendo
que Arnoldo estava envolvido
em outro erro médico.
“Mas ele deu uma casa
e dinheiro para a família
da vítima e eles retiraram
a queixa”, relata.
Luta
contra o tempo
Neide ainda luta na Justiça
para receber uma indenização
do Estado pelo erro médico
ocorrido no HRT. O seu advogado,
Vicente Paulino, diz que tramita
no Tribunal de Justiça
do Distrito Federal uma ação
que pede a condenação
do Governo do Distrito Federal.
“Os valores, que devem
ser pagos em precatórios,
já foram reajustados
várias vezes. Estamos
lutando contra o tempo para
que a Iléia e seus
familiares possam receber
a indenização
para amenizar o sofrimento
e viverem com mais conforto
e dignidade”, explica.
A família, que antes
do erro médico morava
em Samambaia, hoje vive numa
casa modesta no Recanto das
Emas.
Apesar
de ser uma criança,
Ilana ajuda a avó nos
cuidados diários da
mãe. Mesmo com a divisão
de tarefas, Neide foi obrigada
a abandonar o serviço
de diarista. Sem falar, andar
e demonstrar sentimentos,
o único passatempo
que resta a Iléia é
a televisão. Ela passa
o dia inteiro em frente ao
aparelho. Só sai de
casa para as consultas de
rotina no hospital Sarah Kubitschek,
geralmente duas vezes ao ano,
ou em caso de alguma emergência.
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Luta
incansável por punição
Dedicado
há sete anos a cuidar
da filha Renata, hoje tetraplégica
e em estado vegetativo, o
aposentado Luiz Felipe Gonçalves
não se conforma com
o fato de o médico
acusado continuar praticando
a medicina.
O
aposentado Luiz Felipe Gonçalves,
67 anos, usou a internet e
diversos pontos movimentados
de Brasília para divulgar
o erro médico do qual
a filha Renata Gonçalves,
hoje com 39 anos, teria sido
vítima numa famosa
clínica de inseminação
artificial da cidade. Depois
de enviar cerca de 25 milhões
de e-mails, que circularam
em todo o país e até
no exterior, e de distribuir
1 milhão de panfletos
denunciando o caso, a clínica
mudou de nome e o proprietário
decidiu se mudar para Salvador
(BA), onde abriu uma filial.
Assim que tomou conhecimento,
o aposentado contratou uma
empresa para distribuir 300
mil fôlderes na capital
baiana. “Depois do que
aconteceu com a minha filha,
é um absurdo o ginecologista
Joaquim Roberto Costa Lopes
continuar praticando a medicina.
Isso mostra que a impunidade
ainda prevalece em nosso país”,
desabafa Felipe.
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Luiz
Felipe e Renata:
trauma emocional, despesas mensais
de R$ 10 mil e frustração
com
absolvição do médico
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Em
28 de fevereiro de 2002, após
várias tentativas de
ser mãe, Renata decidiu
procurar uma clínica
de reprodução
humana para realizar um dos
seus maiores sonhos. Casada
com o bancário Carlos
Alberto Lopes há 11 anos,
a então secretária
do presidente da Embrapa tomou
coragem e se submeteu a uma
videolaparoscopia (técnica
para identificação
de patologias ginecológicas).
“Eu cheguei a sugerir
que ela adotasse uma criança,
mas ela insistia na inseminação
artificial, já que estava
tentando engravidar há
três anos sem sucesso”,
lembra o pai. No dia do exame,
Luiz Felipe conta que verificou
os equipamentos e a estrutura
da clínica. “Aparentemente
estava tudo perfeito e se tratava
de um médico famoso que
atuava no Lago Sul.” Renata
foi atendida por Costa Lopes.
A crise
Depois do procedimento, Renata
deveria voltar para casa em,
no máximo, duas horas.
Não foi o que ocorreu.
Durante a videolaparoscopia,
a secretária sofreu uma
parada cardiorrespiratória
após a anestesia. “O
mais impressionante é
que o anestesista aplicou a
injeção e foi
embora. Quando a outra anestesista,
que nunca havia estado no local,
chegou, encontrou minha filha
praticamente morta. Ela caiu
de paraquedas. O doutor Joaquim,
que deveria ter prestado assistência
correta, não estava do
lado da minha filha quando ela
passou mal”, denuncia.
Ainda na sala de cirurgia, Renata
ficou com a pressão e
os batimentos cardíacos
reduzidos a zero: tecnicamente
morta. Depois de 55 minutos
de massagens cardíacas,
e de ter recebido doses de adrenalina
e atropina, ela voltou a respirar.
Ela foi transferida às
pressas para a Unidade de Terapia
Intensiva do Hospital Brasília.
Em
seguida, a família
decidiu levá-la para
o Hospital Barra D`or, no
Rio de Janeiro, onde ficou
53 dias em intenso acompanhamento.
A grave lesão cerebral
fez com que Renata perdesse
pelo menos 40% da audição,
parte da visão e dos
movimentos. Ao voltar para
Brasília, Renata foi
internada no Hospital Sarah
Kubitschek. “Desde 2002,
nossa família não
é a mesma. Mexeu com
todo mundo. Estamos embrutecidos
e com muitas doenças.
Além disso, precisei
vender um apartamento e minha
coleção de 18
carros antigos para pagar
todas as despesas que tenho
com a Renata, em torno de
R$ 10 mil por mês para
custear as despesas com a
equipe multidisciplinar de
29 especialistas.”
Justiça
Sete anos depois da videolaparoscopia,
Renata está tetraplégica
e em coma total e vegetativo.
Não anda, não
fala, tem apenas 10% da visão
do olho direito e nem consegue
comer direito. Mesmo doente,
Luiz Felipe continua dedicando
parte do seu tempo à
Associação das
Vítimas de Erros Médicos
de Brasília (Avemb),
criada para orientar as famílias
das vítimas de procedimentos
médicos.
Ele
também luta para receber
uma indenização
do ginecologista Joaquim Roberto.
“Ele me deve mais de
R$ 1 milhão, pois é
esse o valor de tudo o que
já gastei com a minha
filha.” Segundo o aposentado,
no julgamento da classe médica,
Joaquim Roberto foi inocentado.
O ginecologista foi absolvido
por unanimidade pelos integrantes
do Conselho Regional de Medicina
do Distrito Federal (CRM-DF).
“Vi numa reportagem
da TV que 21 dos 42 integrantes
do CRM respondem a processos
por erro médico, inclusive
o presidente”, afirma.
O
médico Antonio Carvalho,
conselheiro do CRM-DF, afirma
ao Correio que não
pode fornecer nenhuma informação
sobre os processos que tramitam
no conselho. “Os procedimentos
correm sob sigilo e não
são divulgados até
que sejam concluídos”,
explica.
A
família ingressou com
ação no Ministério
Público, mas o processo
prescreveu. “A desembargadora
ficou 10 meses com o processo
na gaveta. O ginecologista
foi indiciado, mas não
foi julgado. O lobby dos médicos
é muito grande e eles
têm força no
Congresso Nacional”,
desabafa. Os anestesistas
fizeram um acordo com a família
e custeiam 35% das despesas
com Renata, em torno de R$
3,5 mil por mês. O ginecologista
vai complementar os outros
65%, em torno de R$ 6,5 mil
a cada mês.
Eutanásia
Diante do sofrimento da filha
e de toda a família,
Luiz Felipe defende a eutanásia
para Renata, apesar de a prática
ser proibida no país.
“A contragosto da minha
família, já
solicitei uma autorização
para abreviar a vida dela,
mas não da forma convencional,
que é deixar de alimentar,
onde vai morrendo aos poucos.
Acho que a forma mais sensata
é a aplicação
de uma injeção
letal”, revela. “Defendo
isso porque minha filha é
uma boneca de pano e o seu
sofrimento se espalhou por
toda a família. Prefiro
ver minha filha morta a viver
numa situação
dessas.” (RC)
A
contragosto da minha família,
já solicitei uma autorização
para abreviar a vida dela.
Luiz
Felipe Gonçalves, pai
de Renata e presidente da
Associação de
Vítimas de Erros Médicos
de Brasília
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