::Ginecologista é obrigado
a indenizar paciente que ficou tetraplégica::
A
Justiça de Brasília
determinou que o ginecologista Joaquim
Roberto Costa Lopes terá de
indenizar a família de Renata
Vieira Gonçalves Lopes, 40
anos. A servidora pública ficou
com várias seqüelas depois
de fazer uma exame de videolaparoscopia
na clínica dele, em fevereiro
de 2002. Tetraplégica desde
então, a paciente vive em estado
vegetativo — ficou muda, surda
e cega. Para cuidar dela, a família
contratou seis enfermeiras e três
empregadas domésticas. Além
disso, 25 médicos acompanham
a vítima. A despesa com o tratamento
custa R$ 12 mil por mês.
A
partir do dia 25 deste mês,
os familiares podem receber uma ajuda
de R$ 6,4 mil. Foi esse o valor estipulado
na decisão do juiz titular
da 2ª Vara Cível do Tribunal
de Justiça do Distrito Federal
(TJDFT), Jansen Fialho de Almeida.
A sentença foi proferida ontem.
Apesar de a ação estar
em fase probatória, porque
aguarda a realização
de perícia médica para
ser julgada, o magistrado deferiu
o pedido da antecipação
da indenização para
que não seja interrompido o
tratamento da vítima, uma vez
que a família dela alega não
ter mais condições de
arcar com as despesas médicas.
No
relatório, Jansen Fialho fundamentou
a decisão citando o artigo
5º da Constituição
Federal, que garante direito universal
à saúde. Segundo ele,
esse conceito “deve prevalecer
em detrimento ao direito patrimonial
discutido nos presentes autos, de
quem deve arcar com as despesas”.
O depósito do dinheiro será
mensal e vitalício. O descumprimento
acarreta multa diária de R$
1 mil. O primeiro depósito
deve ser feito em juízo. As
demais parcelas, em conta a ser indicada
pelos parentes de Renata.
A
decisão judicial em primeira
instância — cabe recurso
— levou um pouco de alívio
aos familiares de Renata. O pai da
paciente, Luiz Felipe Gonçalves,
66, disse que isso não trará
a recuperação de sua
filha, mas, pelo menos, atenua o sofrimento
deles com os gastos empregados no
tratamento. “Eu já gastei
mais de R$ 1 milhão até
agora. São três empregadas
em turnos diferentes para trocarem
a roupa e cinco enfermeiras que se
revezam”, explica. “A
única ajuda que tive foi dos
anestesistas. Cada um foi obrigado
a dar 40% do salário para ajudar
na recuperação da minha
filha. Mas isso equivale a R$ 2 mil”.
Ele se refere aos médicos Demétrius
Magnus de Araújo Ribeiro e
Christine Soares Tavares, que integravam
a equipe de Joaquim no dia do procedimento.
Médico
não sabia
A decisão também foi
comemorada pela Promotoria de Defesa
dos Usuários dos Serviços
de Saúde (Pró-Vida)
do Ministério Público
do Distrito Federal. “Tinha
passado da hora”, declarou o
promotor responsável pelo caso,
Diaulas Ribeiro. Na época,
o representante do MP denunciou o
médico por lesão corporal
dolosa, mas a defesa conseguiu desqualificar
a denúncia para culposa. A
pena prevista era de três meses
a um ano e quatro meses de prisão.
Entre os vários recursos, o
processo acabou prescrevendo por ter
extrapolado o prazo limite de dois
anos. “O antiquado sistema processual,
que assegura à defesa uma enormidade
de recursos, acabou permitindo a prescrição
da ação judicial”,
atacou Diaulas.
Inocentado
também pelo Conselho Regional
de Medicina, o ginecologista Joaquim
Roberto Costa Lopes continua trabalhando.
Ele vive na ponte aérea Salvador–Brasília.
Da Bahia, por telefone, ele conversou
com a reportagem do Correio e disse
que não sabia da decisão.
Informado pela reportagem, ele antecipou
que consultaria os advogados sobre
a possibilidade de recorrer. “Eu
fui absolvido no âmbito do CRM
e Judicial. Ficou claro que foi uma
fatalidade”, alegou.
Em
28 de fevereiro, Renata foi internada
no Centro de Endoscopia e Assistência
à Fertilidade (Cenafert), do
Lago Sul, para fazer um exame que
comprovasse uma possível infertilidade.
Na denúncia, o MP afirma que
Demétrius era o responsável
pela anestesia geral. Durante o exame,
ele saiu da sala a pedido de Joaquim
Ribeiro — dono da clínica
—, que comandava o procedimento.
Foi substituído por Christine.
Só que os médicos teriam
abandonado a paciente por pelo menos
15 minutos. Segundo Diaulas disse
à época, foi a enfermeira
encarregada de levar Renata para a
sala de recuperação
que descobriu que ela já estava
cianótica — com a pele
arroxeada por conta da parada cardíaca.
Publicação:
20/12/2008 09:00 Atualização:
20/12/2008 09:01
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