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A
FACE OCULTA DO COMA
Silvânia Arriel
O drama
de famílias que cuidam em casa,
durante anos, de parentes em coma
Renata
Vieira, em coma há seis
anos:
cercada por enfermeiras 24 horas
na casa dos pais, em Brasília |
Tão
longe e tão perto:
a filha ali, ao lado,
alheia, parada, inconsciente
enquanto a vida continua
a produzir histórias
alegres, tristes, indiferentes
na engrenagem pontual
dos dias. São
10 anos ou 126 meses
ou mais de 3,8 mil dias
sem falar, saber o que
ocorre à sua
volta, expressar carinho,
praticar atos voluntários.
É a metade de
sua existência
de 20 anos: de criança,
entrou na adolescência,
na juventude submersa
num mundo à parte,
impenetrável.
“Tantas coisas
você perdeu nestes
10 anos, um tempo que
não dá
para recuperar”,
escreveu Odele Souza
para a filha Flávia,
em coma vígil,
no Dia das Mães,
postada no blog que
alerta serem corriqueiros
acidentes como o que
ocorreu com a garota.
Fotos da menina linda,
alegre, brincando de
bailarina condensam
aqueles poucos anos
de vida bem, saudável,
tirada em poucos segundos
por falta de oxigenação
no cérebro, no
dia 6 de janeiro de
1998, num acidente inimaginável
na piscina no condomínio
Jardim da Juriti, onde
morava em São
Paulo. |
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O ralo sugou seus cabelos
e a deixou sem capacidade
de interagir com o meio e
as pessoas, mas com as funções
orgânicas preservadas.
Dorme, acorda, abre e fecha
os olhos (daí o nome
coma vígil), aparenta
reagir a estímulos,
se alimenta por sondas. Do
ponto de vista da neurologia,
um quadro considerado irreversível.
Nem mesmo o despertar do polonês
Jan Grzebski no ano passado,
depois de ter vivido 19 anos
em coma, ou de outros casos
que aparecem sinalizam alguma
possibilidade de mudança.
“Quanto mais tempo demora
em estado de coma, menos chances
de reverter o quadro”,
diz o médico Josaphat
Vilela de Moraes, chefe da
clínica de neurocirurgia
do Hospital de Pronto-Socorro
João XXIII (HPS), de
Belo Horizonte. |
Odele
Souza, com a filha Flávia:
“Quando ela desce
para tomar sol,
vai com a roupa combinando”
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Odele
Souza sabe disto,
não tem esperança
de ver a filha consciente,
inserida novamente
neste nosso mundo.
Mas faz de tudo para
que as coisas boas
deste mundo cheguem
a ela. Expurga o ruim:
a dureza, a frieza,
a impessoalidade dos
hospitais. “Por
mais equipadas, as
clínicas não
têm calor humano”,
diz. Está em
casa, cercada do carinho
da mãe, atenta
aos cuidados necessários
e também à
feminilidade da jovem.
Faz as suas unhas
e esmera no visual.
“Quando ela
desce para tomar sol
na área do
prédio, vai
com roupa combinando,
brincos, presilhas
no cabelo.”
Faz parte da rotina
cadenciada da filha:
todos os dias, às
6h, acorda, tem a
dieta com leite e
suplemento, às
8h a primeira medicação,
escova os dentes,
toma banho, penteia
os cabelos, escolhe
a roupa, às
9h30, fisioterapia,
com exceção
dos domingos. De 10h30
às 13h30 fica
sentada numa cadeira
para facilitar a respiração,
na área do
prédio ou no
quarto. |
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Depois
volta para a cama, recebe
alimentação
por sonda, é colocada
em outra posição.
Odele conversa com ela, como
na carta escrita no Dia das
Mães, em que relembra
o pano de prato com o desenho
de suas mãos pintadas,
que ganhou de presente. Amanhã
é outro dia, tudo recomeça
sem a esperança de
ver a filha falar, andar.
A
mãe não se
lamuria, nem se estressa
de ter que acordar todos
os dias às 5h30 para
que o ritual seja seguido
à risca. Sabe que
está dando à
filha o que nenhum hospital
poderia oferecer: o manuseio
respeitoso do corpo, a convivência
direta afetuosa e a observação
de cada progresso, de cada
manifestação.
“Aprendi a ler a expressão
no seu rosto. Sei quando
está com tensão
pré-menstrual, quando
sente dores”, relata.
Aprendizado que veio com
o tempo, com a transposição
da tristeza por ver a filha
viva, mas em coma. “Fiquei
de luto profundo por dois
anos, depois saí.”
Teve de se adaptar à
nova vida que se apresentou
depois do acidente, à
perda do emprego de 4 secretária
bilíngüe, à
aposentadoria involuntária,
tudo sem resignação
ou se tornar vítima.
“Tenho consciência
de que meu desempenho profissional
caiu.”
Pronto:
partiu para a luta, aprendeu
a lidar com a filha, a se
revezar com uma auxiliar
de enfermagem e reduzir
custos. Nas folgas, reserva
parte do dia para ir a exposições,
teatro, cinema, e evitar
o estresse tão comum
em pessoas que lidam com
doentes. Hoje, teria de
gastar nove mil reais para
suprir todas as necessidades
de Flávia, o que
não ocorre. “Falta
fonoaudiólogo.”
Ela batalha para isso, mas
se diz barrada pela lentidão
da Justiça, nestes
dez anos, na sua busca por
indenização
pelo acidente. Propuseram
100 mil reais. “Não
aceitei, porque não
paga o sofrimento. Disseram
que eu ia ficar rica. Eu
era rica quando ela estava
bem,” afirma. Continua
a sua luta pela indenização
e de alertar no seu blog
que acidentes como o que
ocorreu com Flávia
são mais comuns do
se pensa. “Estou exercendo
o meu direito de cidadania
e o da minha filha, que
lhe foi tirado.”
Num
acidente rápido,
improvável de acontecer,
em questões de segundos
(em sua maioria traumas),
que mexe com a família,
a deixa sem saber o que
ocorre neste buraco negro
da inconsciência em
que a pessoa entrou. “Ela
sente dor, mas não
a interpreta, não
localiza o estímulo”,
explica o médico
Josaphat Vilela de Moraes.
Um silêncio profundo
que ensurdece, tira o prumo
da existência dos
que ficaram ao redor. “Acabou
com a vida da mãe,
do marido, dos irmãos,
dos sobrinhos, embruteceu
a família”,
diz Luiz Felippe Gonçalves,
pai de Renata, em coma desde
fevereiro de 2002. Ela mergulhou
neste estado após
se submeter a videolaparoscopia,
com anestesia geral, que
o pai acusa de erro médico.
Teve parada cardiorrespiratória,
ficou sem oxigenação.
Renata
queria engravidar. Já
havia três anos que
tentava ter um filho, formar
família. “Ficou
cinco anos sem dar sinal
de vida. De 2007 para cá,
aconteceram coisas boas,
ela está em coma
vegetativo superficial.
Parece que escuta, mas não
entende”, relata Gonçalves.
Esse mundo em que habitou
conscientemente por 32 anos,
se formou em comércio
exterior, viajou por vários
países, falava inglês,
estudava espanhol, praticava
esportes desde pequena,
não bebia nem fumava.
Hoje é cercada por
enfermeiras, 24 horas, na
casa dos pais, onde foi
morar depois do coma, fora
fisioterapeutas, fonoaudiólogos,
médicos.
Há
todos os cuidados possíveis,
num gasto mensal que varia
de 10 mil a 12 mil reais.
Nem tem as tão temidas
escaras, feridas que costumam
aparecer na maioria dos
pacientes imobilizados por
longo tempo. “O pessoal
dos hospitais elogia”,
lembra o pai, que se esforça
para manter o vínculo
com a caçula, a única
mulher de seus três
filhos. Conversa, faz carinho,
coloca as músicas
de que gostava. “Falo
até mentira: Ó
Renata, a Ivete Sangalo
está aqui hoje.”
Tenta recompor o fio da
história de vida
da filha, mesmo com tantas
dilacerações
ao vê-la naquele estado,
atrofiada pelo inevitável
afrouxamento da massa muscular,
sem falar, inconsciente.
“Ninguém
imagina o que a gente passa.
Quando a pessoa está
ruim, mas lúcida,
é diferente. Ela
não segura a cabeça,
parece boneca de pano, é
uma morta viva”, diz
Luiz Felippe Gonçalves.
Não tem esperança
de rever a filha falar,
retomar a vida fluida de
antes da videolaparoscopia
e acredita, sem meias palavras,
que o melhor agora é
a morte. “No fundo
do coração
de pai, se for, vai ser
ótimo para ela e
a família.”
Prefere guardar as lembranças
da Renata esperta, alegre,
saudável, que o coma
lhe tirou.
Revista Encontro, Belo Horizonte
- MG
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